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A Gata!

Luiz Carlos Merten

05 de junho de 2016 | 09h12

Sou um bicho de cinema, mas, cada vez mais – influência de meu amigo Dib Carneiro -, o teatro me impregna. Luchino Visconti, que amava Verdi e o melodrama, dizia que era filho das duas linguagens e que elas se fundiam nele. Seu teatro era alimentado pelo cinema, e o cinema, pelo teatro. Amo os grandes diretores teatrais. Os brasileiros, Gabriel Vilela, Eduardo Tolentino, não os importados, como Bób Uílsôn, como o chama Isabelle Huppert, magnífica em Elle, de Paul Verhoeven, e nem ela nem Sonia Braga, a Clara de Kleber Mendonça Filho em Aquarius, foram melhor atriz em Cannes. Fui ver ontem Gata em Telhado de Zinco Quente. Homem de pouca fé! Cheguei a escrever no blog que ia deixar de ver a Gata de Elizabeth Taylor (e Richard Brooks) em Paris para não prejudicar a de Bárbara Paz, pois é um daqueles momentos da trajetória de Liz que explicam como aquela mulher virou mito. A gente só se arrepende do que não faz. Deveria ter visto, e estaria agora comparando no meu imaginário dois belíssimos trabalhos. Algo se passa no Teatro do CCBB quando se abre aquela porta/painel – Tolentino e seus espelhos – e Bárbara irrompe em cena. Ela avança até o centro do palco, tensa, encara o vazio, em silêncio, a plateia, e despeja o verbo de Tennessee Williams, reclamando da fertilidade de Mae, a cunhada, e seus monstrinhos, os cinco filhos. Tolentino conseguiu, de novo. Depois do mítico Nelson Rodrigues, ele dá conta do realismo psicológico de Tennessee. A montagem funde os atos. O começo é do casal, Maggie e Brick, Bárbara e Augusto Zacchi. No segundo, tão poderoso quanto Maggie, adentra Big Daddy, o Paizão. Zécarlos Machado, em seu terno de linho branco, diz as grandes frases que soam como sentenças. Diz que tudo viu em suas andanças pelo mundo, quando era pobre – e dá para acreditar naquilo -, mas diz mais. Falsidade. Eu podia escrever um livro sobre isso, sabe?, e não ia esgotar o assunto. É um puta texto de Tennessee Williams. Ganha uma puta montagem. A crise de um casamento. Brick bebe porque tinha um amigo, Skipper, a quem amava, mas Maggie ousou supor que havia algo mais entre eles. A homossexualidade que atormentava o escritor. Brick acusa Maggie de haver matado Skipper, e bebe. Falsidade. Big Daddy, que tudo sabe, tudo viu, confronta o filho com a própria mentira. Big Daddy pode ser cruel, mas sofre. Por si, pelo filho que ama, mas é difícil manifestar. Por Maggie – “Essa garota tem vida dentro dela”, reconhece. Paizão só não está pronto – quem está? – para enfrentar a própria morte. Maggie, a gata, ardendo de tesão pelo marido, é guerreira. Não desiste dele e, no final, o casal está se preparando para fazer um filho – como Jean Dasté e Dita Parlo no desfecho de O Atalante, de Jean Vigo, há mais de 80 anos. Brick rende-se. Em sua última fala – o programa da peça diz que Tennessee atendeu o pedido de Elia Kazan, que dirigiu a montagem original, e mudou o texto – , Maggie reflete que as mulheres são fortes, os homens são fracos. Ele, de certa forma, concorda. Dizer o quê? É melhor não dizer nada. Tudo é dito na cena entre pai e filho. Tudo – até o que permanece subentendido. Havia visto uma vez a peça e várias vezes o filme de Richard Brooks, cineasta a quem venero, mas nunca, como ontem, ou nessa montagem, a essência masculina da peça me tocou tanto. Bárbara é ótima, mas o eixo Paizão/Brick me arrebatou, arrebentou. Chorei como um condenado e quando ambos, Paizão e Brick, caem ao chão, vergados de dor, senti como se estivesse tendo o privilégio de ver algo especial, muito forte e intenso. Liz, Bárbara, Zécarlos, Burl Ives – ele ganhou o Oscar de coadjuvante de 1958, mas não por repetir Big Daddy, que criara na Broadway, e sim por Da Terra Nascem os Homens, de William Wyler. E, claro, Zacchi/Paul Newman. Em 1958, Paul Newman era um deus, e assim permaneceu. Juro que me lembrei de Bette Davis, que lhe entregou seu Oscar – por A Cor do Dinheiro, em 1986 – e forçou o público a se levantar para aplaudir, dizendo que era um absurdo que Newman tivesse esperado tanto tempo para receber seu prêmio. Se Bárbara sustenta a comparação com Liz Taylor, Zacchi, com um visual que evoca Newman – ou pelo menos eu vi um no outro -, é genial. Seu trabalho com a muleta, e as mãos, é uma coisa de louco. Numa cena em que Maggie avança sobre Brick, Zacchi permanece sentado na cama, com a mão apoiada na muleta. Não diz nada, mas a crispação da mão revela tudo. Gostei demais da Gata no telhado. E hoje vou ver Rainhas do Orinoco. O teatro sorri para mim neste fim de semana.

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