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A garota do assovio

Luiz Carlos Merten

12 de agosto de 2014 | 23h52

Faço uma pausa na cobertura do Festival de Gramado, mas é por uma boa causa. Em primeiro lugar, não estou acreditando. Ontem, fui retirado de uma sessão pelo chamado do jornal, por conta da morte de Robin Williams. Hoje, tive de sair de novo, por outra morte – a de Lauren Bacall, aos 89 anos.Parem de morrer, pelamor de Deus, para que eu possa continuar vendo esse festival sem estresse. Lauren Bacall era o nome artístico de Betty Joan Perske, que nasceu em Nova York, em 16 de setembro de 1924 – era virginiana, como eu -, numa tradicional família de origem judaica. Por parte de pai, tinha ligação com Shimon Peres, que foi primeiro-ministro de Israel. Betty Joan foi descoberta pela mulher do diretor Howard Hawks, que viu sua foto na capa da revista Bazaar e a recomendou ao marido, que havia feito uma aposta com o escritor Ernest Hemingway – a de que poderia transformar num bom filme a pior história dele – e agora buscava a atriz para a sua versão de To Have and to Have not (no Brasil, o filme se chamou Uma Aventura na Martinica). A primeira coisa que Hawks fez foi mudar o nome de Betty Joan, transformando-a em Lauren Bacall. O ano era 1944, o astro era Humphrey Bogart, que já era casado, mas algo se passou entre Lauren e ele no set. Casaram-se no ano seguinte, tão logo foi assinado o divórcio, e permaneceram juntos até a morte dele, em 1957. Com o marido ela interpretou mais três filmes, todos de inspiração noir –  À Beira do Abismo, também de Hawks; Prisioneiro do Passado, de Delmer Daves; e Paixões em Fúria, de John Huston. Conta a lenda que estaria tão nervosa no set do primeiro filme que Hawks lhe deu um conselho para manter a cabeça firme, sem tremer. Sugeriu que puxasse o cabelo de lado e olhasse meio enviesada para a câmera, de baixo para cima. Surgiu assim The Look, uma certa maneira de se posicionar perante a câmera que fez de Lauren Bacall um ícone – da moda como do cinema. Somado à voz rouca, o ‘olhar’ esculpiu o mito. Ela seguiu fazendo filmes importantes com diretores de prestígio – Palavras ao Vento, de Douglas Sirk; Paixões sem Freio, de Vincente Minnelli; Médica Bonita e Solteira, de Richard Quine; Harper – Caçador de Aventuras, de Jack Smight (no tempo em que ele era bom); Assassinato no Orient Express, de Sidney Lumet; O Último Pistoleiro, de Don Siegel; Dogville e Manderlay, de Lars Von Trier etc. Recebeu um Oscar honorário e ganhou o Globo de Ouro de coadjuvante por O Espelho Tem Duas Faces, de Barbra Streisand. No começo da carreira, seu modelo de mulher independente e moderna era Bette Davis. Anos mais tarde, Lauren retomou um dos maiores papeis de Bette – Margo Channing – na versão musical de A Malvada/All About Eve, de Joseph L. Mankiewicz, na Broadway. A própria Bette foi cumprimentá-la no camarim de Applause. Lauren ganhou o Tony, o Oscar do teatro, e há dois anos Berlim lhe outorgou um Urso de Ouro especial. É dela uma das mais famosas réplicas da história do cinema. Hawks, percebendo a química entre os protagonistas de Uma Aventura na Martinica, pediu aos roteiristas Jules Furthman e William Faulkner – tem um terceiro de quem não me lembro – que a sublinhassem numa frase. Lauren diz ao futuro marido – ‘Se quiser me chamar, é só assoviar.’ Nem as feministas mais radicais a condenaram por isso.

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