As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

A força das águas!

Luiz Carlos Merten

06 Janeiro 2018 | 08h27

FOZ DO IGUAÇU – Cá estamos, Dib Carneiro e eu. Fiquei tão impressionado com o longa de Caroline Leone, Pela Janela, que quis vir conferir as cataratas. A força das águas. A descoberta das cataratas, pela personagem de Magali Biff, foi uma coisa mágica, para mim, no filme. E Magali, que me perdoe Maria Ribeiro, foi a melhor atriz de Gramado, no ano passado, pelo papel. Outro júri talvez reconhecesse isso e lhe outorgasse o Kikito. Havia vindo aqui há mais de 40 anos com Doris. Dessa vez, estamos num hotel cassino do lado argentino. O hotel é ótimo, mas passar pela aduana da Argentina é um inferno. Processo lento, demorado. Perde-se, no mínimo, uma hora naquela fila, e tudo o que temos feito tem sido no lado brasileiro. No primeiro dias, não dava mais tempo de ir às cataratas e fomos ao Cinemark (no shopping do Brasil) para ver Viva. Tomei um choque com a animação de Lee Unkrich. Ele foi editor de Toy Story, o 1, codirigiu o 2 e Procurando Nemo, dirigiu Toy 3. A Pixar e a morte, um tema que o velho Walt, na Disney, tratou de forma antológica em Bambi. A morte da mãe de Bambi é uma das grandes cenas do cinema, não só de animação. O menino que sonhas ser artista, cantor, e colhe a oposição das mulheres da família. A figura do tataravô fujão, exorcizada por gerações dessa família. O culto dos mortos, na cultura mexicana. Dib Carneiro foi à Cidade do México com Gabriel VIllela num 2 de novembro para fazer pesquisa, acho que para a encenação de Rainhas do Orinoco. Conversamos muito sobre esse culto aos mortos, tão entranhado na alma mexicana. Firmin, o cônsul inglês em Cuernavaca – A Sombra do Vulcão, de Malcolm Lowry, que John Huston adaptou lindamente, com Albert Finney. Agora, o personagem é esse menino. Chama-se Miguel, tem um cão e vai parar no Mundo dos Mortos, do qual ameaça não voltar. Chorei pra burro – numa sessão cheia de crianças barulhentas, o velhote quase teve um troço. E o colorido, o visual. Gostei bastante, mas fiquei naquela dúvida. As crianças vão gostar? As da fronteira argentina, naquela sessão, sim, mas os temas me pareceram tão ‘adultos’. E fomos – na sexta – às cataratas, no lado brasileiro, com direito a passeio de helicóptero, de barco. O jorro infinito d’água. A emoção humana que não pode ser represada. Construí 1001 metáforas naquele cenário grandioso, e hoje, sábado, tem mais. As cataratas do lado argentino. A Garganta do Diabo vista de cima. Lembrei-me muito de Walter Hugo Khouri que, há quase 60 anos, filmou Na Garganta do Diabo. Guerra do Paraguai, e soldados desertores chegam à fazenda de Odete Lara e Edla Van Steen. Luigi Pichi, José Mauro de Vasconcelos (o escritor) e Milton Ribeiro integram o grupo. Chegam na sequência de uma fuga violenta. São perseguidos. E, na cena culminante, não lembro mais se é Luigi, mas um dos protagonistas masculinos, de rosto coberto, é justiçado e jogado nas águas da Garganta do Diabo. Pouca gente deve-se lembrar do filme, mas Khouri e seu fotógrafo Rudolf Icsey ganharam todos os prêmios de 1960. A fase bergmaniana, sexo e repressão. Odete e Edla de preto, longos vestidos. O calor, a selva. Tenho pensado muito no filme, no Khouri. E me lembrei também de um clipe de Clara Nunes no Fantástico. Dib pesquisou e encontrou. Guerreira, de 1978. São imagens que estão no meu imaginário. O real é impressionante, mas a Garganta do Diabo eu carrego sempre como décor de cinema. Até James Bond andou por aqui… Na semana que vem, volto a São Paulo e, embora em férias, vou à junket de Pela Janela. O filme estreia logo. Aguardem Magali Biff.