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A filha que era mãe

Luiz Carlos Merten

13 de novembro de 2014 | 11h00

Não, não é gozação com Alfred Hitchcock nem com Psicose, que, conta a lenda, se chamou O Filho Que Era Mãe, em Portugal. Mas já advirto que o post vai revelar aspectos essenciais da trama de Fedora. Depois, não me acusem de haver contado o filme e, além do quê, a produção é de 1978. Meio tarde para se reclamar ineditismo. Havia perdido Fedora quando a versão restaurada do filme passou em Cannes Classics, nem me lembro se neste ano ou no anterior. Só me lembro de haver encontrado Tiago Stivaletti em êxtase, após a sessão. Tenho de admitir, e nem sei por quê, que nunca havia visto o penúltimo Billy Wilder. Todas as vezes em que escrevi sobre o filme, ao passar na TV, por exemplo, foi sem emitir juízo de valor. Acrescento, e isso pode surpreender, que minha admiração por Wilder sempre foi relativa. Dos vienenses de Hollywood, meu preferido sempre foi Otto Preminger – ator de Wilder em Inferno 17 -, e quanto a isso nunca fiz segredo. Gosto sem exagero das comédias e filmes noir de Wilder. Ultimamente, ao rever seus filmes, tenho gostado mais daqueles que as pessoas – a ‘crítica’ – tendem a negligenciar. Danem-se, o gosto é meu. Curto mais A Vida Íntima de Sherlock Holmes que Pacto de Sangue, divirto-me mais com Avanti… Amantes à Italiana que com Se Meu Apartamento Falasse e tenho uma queda por Irma la Douce, que Jean Tulard, no Dicionário de Cinema, considera ‘execrável’. Dito isso, e não é para chocar, acrescento que a mi(s)tificação de Marilyn Monroe pelo diretor me aborrece um pouco – prefiro-a com Joseh L. Mankiewicz e John Huston -, que Crepúsculo dos Deuses/Sunset Boulevard nunca foi nem será dos meus Wilder preferidos e, sim revi outro dia na TV paga Beija-me Idiota e tive a impressão de que, por uma vez, Wilder finalmente fazia jus a sua fama de cínico e virulento. Nunca houve um filme sobre casamento – sobre a esposa – no cinema de Hollywood como aquele. E chego a Fedora, que acaba de sair em DVD – a versão restaurada de Cannes – pela Versátil. Tomei um choque. Não tenho entrevistado Pedro Almodóvar ultimamente, mas em todos os nossos encontros ele sempre colocou Billy Wilder no seu panteão particular de grandes diretores que o marcaram, e influenciaram. Vocês vão querer me matar, mas tive a impressão de que Fedora era um roteiro de Almodóvar malfeito por Wilder, que se mantinha sóbrio – e clássico, contido -, com medo de delirar. Na vertente de Sunset Boulevard, Fedora é outro filme sobre a loucura de Hollywood, que Wilder transforma aqui no cemitério de Hollywood. O filme começa com uma morte – uma mulher joga-se diante de um trem, como a protagonista de Ana Karenina – e a cena é tão fake que eu, que não conhecia o filme, esperava ouvir o ‘Corte!’, como se fosse uma filmagem. Prossegue com o enterro e o velho William Holden que, de novo, retoma a função do narrador, que já exercera em Sunset Boulevard, conta o filme na primeira pessoa. Antes um roteirista (no outro filme), ele agora é um roteirista/produtor que tenta ressurgir dos mortos, como Norma Desmond, mas precisa romper o isolamento de Fedora, a estrela de quem, no passado, foi amante por um breve momento – uma noite – e que se isolou do mundo, como Greta Garbo. Na ficção de Wilder, Fedora submeteu-se a um tratamento, em busca da eterna juventude, mas algo deu errado e ela ficou desfigurada. A filha é treinada para substituir a mãe e, por meio dela, Fedora permanece eternamente jovem e bela. O preço a pagar é que a filha anula sua identidade. Ao se apaixonar – por Michael York! Wilder devia estar louco -, ela, presa ao espelho da mãe, se rebela e começam as brigas. Ninguém é o que parece ser, e Wilder, que sempre curtiu o travestismo, faz com que mãe e filha assumam outras identidades, verdadeiros disfarces. No limite, as filha vinga-se e essa desestabilização do mundo ocorre no momento em que Holden vai propor a Fedora que faça uma nova versão de Ana Karenina. O curioso é que sempre pensei em A Pele Que Habito como a versão almodovariana de Les Yeux sans Visage, de Georges Franju, mas não! O filme é a Fedora de Almódovar. E, se vocês pensarem, mães e filhas que trocam, posições não são raridade no cinema de Pedrito, podendo-se citar Volver, como exemplo anterior. Queria ter gostado de Fedora, porque a ideia me pareceu muito interessante, e extravagante, mas Wilder permanece na platitude e o filme não chega lá. Daí a minha sensação de um filme de Almodóvar malfeito. Essa foi outra convicção que sempre tive. Embora Almodóvar já tenha ganhado até Oscar de roteiro,  suas histórias são tão tortas que eu tenho a impressão de que ele as salva com sua mise-en-scène. Outro diretor exporia suas fragilidades. E que mulheres inexpressivas – Marthe Keller coloca toda a sua expressão na voz, o que é aceitável porque, afinal, está interpretando uma máscara, mas Hildegarde Knef, presa à cadeira de rodas, é outra máscara (como Dorian Gray que vai envelhecendo no quadro). Gostei de ter visto Fedora. Fiquei com muitas ideias fervilhando, mas não gostei do filme. Nesse momento, tenho a sensação de nem apreciar tanto Wilder. Talvez passe, quando vir algum de seus filmes de que (ainda) gosto.