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A festa já vai começar

Luiz Carlos Merten

06 de fevereiro de 2019 | 20h45

BERLIM – Cá estou, para mais uma Berlinale. A série inferno astral continua, mas não ligo mais. Pode ser masoquismo, mas acho que me diverte. Hoje pela manhã, no café, em Paris, o guardanapo caiu, eu fui pegar e dei com a testa na quina da mesa ao lado. Abriu um buraco, sangrou abundantemente, uma garota que falava uma dessas línguas nórdicas passou mal. Causei! Queriam me levar ao hospital para levar pontos, mas ia perder o voo. Lá fui eu para o aeroporto – Charles De Gaulle – segurando um saco de gelo na cabeça. Em janeiro, fiz a travessia dos Andes; em fevereiro, a dos Alpes A beleza, e o significado místico, desses lugares são de cortar o fôlego. Fui jantar com Orlando Margarido num restaurante da região de Charlottestrasse. Porco e vinho, alguma coisa assim (o nome do restaurante). Puxei assunto com o garçom, e ele é de Rimini, a cidade em que Federico Fellini nasceu e na qual se passam alguns de seus filmes. No final, tudo, na minha vida, parece girar em torno do cinema. Como não existe para mim Paris sem Notre Dame – e eu ainda não havia passado pela catedral imortalizada por Victor Hugo -, fui hoje, com a testa rebentada e tudo. Depois, passei pela Gibert Jeune do Quai Saint Michel e comprei dois livros fartamente ilustrados – a Paris de François Truffaut e a de Michel Audiard, pai de Jacques. Por mais que seja comprador compulsivo de Cahiers, Positif, Première e Studio, não tenho muito apreço por nenhuma dessas revistas francesas de cinema e a todas prefiro Transfuge, cujo diretor de redação de cinema é Damien Aubel. Sempre que estou em Paris tento comprar números antigos de Transfuge. A revista é multicultural. Foi assim que, na edição de dezembro, descobri a existência de Rachid Ouramdane, coreógrafo humanista que Transfuge considera talvez o maior nome da dança contemporânea. Nunca tinha ouvido falar. Para mim, bastaram as fotos. Ouramdane criou um espetáculo, Franchir la Nuit, para confrontar o público com o drama dos refugiados, que são indissociáveis do mar, nessa odisseia tão trágica do mundo moderno. Ouramdane transforma o palco numa piscina e cria a dança dentro d´água. São imagens impactantes. O texto informa que as estrelas da companhia são duas bailarinas handicapées. Uma tem um braço mecânico e a outra, uma disfunção neurológica que faz com que seu corpo tenha espasmos incontroláveis. Ouramdane transforma isso em arte. Seu desafio – objetivo – é descolonizar os olhares, os gestos. Quer mostrar a vida, a juventude ameaçada, mais que o status dos refugiados. O novo, o surpreendente. Uma frase de Clint Eastwood, de 88 anos, sobre A Mula. Nunca é tarde paras aprender – sobre as pessoas, o mundo. Nem sempre o que a gente aprende é nobre, é bom, mas faz parte. Li maravilhado sobre Ouramdane – há todo um mundo de arte a ser explorado. Agora mesmo, estou em Berlim, o mais politizado dos festivais, que começa amanhã. Tudo o que espero é que o cinema, mais uma vez, me maravilhe.