As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

A Fedra de Roberto Alvim, despedindo-se

Luiz Carlos Merten

27 Maio 2018 | 13h34

Foi há quase um mês. Embarquei para a França em 6 de maio. Na véspera, havia assistido à Fedra de Roberto Alvim, no Sesc Pompéia. O próprio diretor me informou que, após essa temporada, espera voltar no Clube Noir. Durante todo esse tempo a peça me acompanhou, mas, comprometido com a cobertura diária do Festival de Cannes, não consegui encontrar espaço para abordar o tema. Entusiasmei-me com, a ideia de que haveria outra Fedra, a de Sêneca, na Comédie Française, mas a temporada já se encerrara. Volto e vejo, no Divirta-se, que Fedra está se despedindo aqui também. Última semana – mas vai voltar. Gostei demais, e se arrisco esse texto é para motivar quem o ler. Tenho uma admiração sem limites por Roberto Alvim e sua poderosa mulher, Juliana Galdino. Suas incursões pelo mundo grego me fascinam e o Leite Derramado foi das minhas experiências viscerais em teatro. Jules Dassin fez uma Fedra com sua então mulher, Melina Mercouri, nos anos 1960. Era muito jovem, e vi o diretor ser massacrado pela crítica. O filme chamava-se Profanação. Naquele tempo, bater em Dassin e na Mercouri era quase divertimento. Creio que, hoje em dia, somente Antònio Gonçalves Filho ‘ousa’ resgatar a dupla, bendito seja. Talvez seja temeridade minha tentar erscrever sobre um espetáculo tão erudito que já vi há um certo tempo. Desnecessário elogiar a iluminação, o minimalismo cênico e o elenco. Alvim arrisca, porque a par de Juliana, sempre com sua dicção flagelada e o rigoroso controle do gestual, ele põe corpos jovens em cena. Representam objetos de desejo. Fedra arde pelo enteado, Hipólito. A ausência e a suposta morte do marido a levarão a profanar o tálamo real, acostando-se com Hipólito. A volta do rei precipita a tragédia e Fedra transforma em violação – pelo enteado – o crime que provocou. Essa Fedra é de Racine. Classicismo francês do século 17. Racine bebeu na fonte de Eurípedes, justamente Hipólito. Não sou nenhum especialista, mas a Fedra de Racine é, até onde sei, a tragédia da fatalidade por excelência. São três, ao longo do espetáculo, as confissões que Fedra faz do seu amor culpado. A reação que provoca no rapaz a faz modificar o próprio discurso, com a segunda e a terceira confissões, sendo que a última restitui a inocência de Hipólito, morto pelo pai, entregue que foi à besta do labirinto. Há uma moral, nessa história. Fedra age guiada pelas maquinações de sua aia, Enone, que revela, no desfecho, possuir uma agenda própria. A moral da peça – de Racine – é singular porque não remete às relações entre homens e deuses das demais tragédias regras. O confronto em Fedra é entre cristianismo e jansenismo, e marcou a França dos grandes clássicos – Corneille, o autor do Cid, Molière e Racine. O que se discute é a natureza humana, a salvação do homem e a graça de Deus. O homem salva-se por seu mérito, ou por dom de Deus? E por que alguns, happy few, são merecedores desse dom? O conflito que parece de outra era nunca deixou de ser ‘contemporâneo’ na França, alimentando as discussões estéticas e teóricas dos autores da nouvelle vague. Não foi, por ascaso, Eric Rohmer o jansenista da mise-en-scène? Talvez eu devesse ter revisto Fedra antes de formular esse texto. Talvez. Mas a ideia de que a peça está saindo e eu nada escrevi me provocou esse frenesi. Nós, pobres homens do século 21, perante o sagrado. E o profano. Ave, Alvim, Ave, Juliana. O teatro deve a vocês mais uma grande obra. O mais impressionante – com simplicidade, Alvim, naquela noite, contou que Fedra já existia no imaginário dele, mas a montagem se construiu nos dois meses em que o Sesc deu o sinal verde para a montagem. Esses grandes homens de teatro – Alvim, meu amigo Gabriel Villela – não param de me surpreender, e maravilhar com seu extraordinário conhecimento humano e estético.