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A euforia despudorada da Arlequina

Luiz Carlos Merten

03 de agosto de 2016 | 09h43

Encontrei ontem Isabela Boscov na junkett de Ben-Hur, com as entrevistas de Jack Huston e Rodrigo Santoro. Com algumas ressalvas, gostei do reboot do clássico de William Wyler pelo diretor (russo) Timur Bekmambetov, e gostei mais ainda do neto de John Huston, filho de seu filho Walter (e de uma aristocrata inglesa). Gente fina é outra coisa, benza Deus! Isabela, que vinha da cabine de Esquadrão Suicida, me disse que havia gostado de muita coisa no filme de David Ayer, mas fez sei lá que ressalva – não lembro. Eu não faço objeção nenhuma. Esquadrão Suicida estreia oficialmente amanhã nos cinemas do País, mas, a partir de hoje, já estará tendo pré-estreias pagas em 863 salas. Considerando-se que Esquadrão é uma espécie de anti-Vingadores, quero dizer que gostei mais que do 2, bem mais, acho que gostei tanto quanto de Guardiões da Galáxia e acho que só perde para Batman vs. Superman, que, afinal, é um dos meus melhores filmes do ano. Por uma questão de tom, e de personagens ‘gauches’, Esquadrão é primo-irmão de Guardiões da Galáxia, mas, enquanto esse último investe abertamente no humor, quero dizer que, gauche como também sou, a carga de drama que cada personagem do esquadrão carrega me tocou, e muito. Alguém vai se surpreender se disser que… Sim, chorei! Há um lado muito interessante – político? – em Esquadrão Suicida, e é essa ideia de fazer um filme com e sobre vilões. Vingadores 2, Guerra Civil (o novo Capitão América) e Batman vs. Superman têm em comum o conceito do choque dos super-heróis, as divisões entre eles, as ‘grey areas’, zonas sombrias, que cada um carrega. Guardiões já é sobre o grupo mais heterogêneo (e esquisito) que alguma vez teve a missão de salvar o mundo. Bem, agora temos outro grupo de weirds, desajustados, ‘monstros'(no sentido ‘risiano’, de Dino Risi, o mestre da tragicomédia italiana). O maior vilão de Esquadrão talvez não seja a entidade que se apossa de Magia, mas a mente distorcida da que seria a personagem, digamos, equilibrada da história, e é Amanda Waller, a responsável pela inteligência do governo dos EUA, que acredita que será possível formar uma força-tarefa com as pessoas mais perigosas do mundo – o pior do pior – para, com elas, fazer o bem. Para alcançar seu objetivo, Amanda/Viola Davis faz todo o mal necessário. Não é a banalidade do mal de Hannah Arendt, mas um mal programático, objetivo, executado com método para se chegar a certos fins. Amanda, a agente do governo, é a mente perigosa de Esquadrão Suicida. Não é o Tommy Lee Jones que tenta salvar a própria pele em Jason Bourne. É algo mais elegante, sinistro (talvez). Cada um daqueles malucos e malucas que compõe o ‘esquadrão’ pode até ter um componente divertido em suas ações, mas o que, pessoalmente, me interessou é que são todos fodidos, consumidos pela culpa e por males de amor. Levei muito a sério a ligação de Pistoleiro com a filha, a dependência de Arlequina do Coringa e a solidão do Diablo, que, com o fogo que brota de suas mãos, destruiu a própria família. Mãos que afagam, mãos que destroem. O Tarzan de David Yates. A entrevista que queria ter feito com Alexander Skarsgard terminei fazendo (one a one) com Margot Robbie, a Arlequina, e também a Jane. No final, ela me beijou, e a assessora da Warner veio me perguntar o que eu tinha feito, porque Margot não havia sido efusiva assim com ninguém. Mas é que retraçamos a carreira dela e, ao contrário da maioria, não creio que O Lobo de Wall Street seja seu filme ‘sério’. Detesto aquele Michael Scorsese e estou disposto a tentar descobrir muito mais riqueza e complexidade em Esquadrão Suicida. Falamos sobre Jane, sobre a Arlequina. Sobre a cena da banheira em A Grande Aposta. Nem precisei me esforçar para buscar significados no Esquadrão. Está tudo no filme. É só olhar sem preconceito (nem superioridade). Esquadrão entra hoje, quarta, 3. Divirtam-se. Ou, melhor, emocionem-se – sem pudor (e como a Arlequina também é despudorada). Entreguem-se!

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