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A eternidade de Anita, naquela fonte

Luiz Carlos Merten

11 Janeiro 2015 | 13h29

Estou há dias sem postar. No temporal de quinta, havia deixado uma fresta na porta da sacada para que Angel, a buldogue da Lúcia, pudesse sair. Não consigo nem imaginar o que houve, mas criou-se um pé de vento que arrancou livros da estante, espalhou revistas, tudo molhado (e algumas coisas perdidas). Pior que tudo, na sexta, ao tentar ligar o laptop, vi que, não sei como, ele estava todo úmido. Abri e a água veio feito uma comporta. Deve ter dado perda total, mas não tive tempo de checar. Tinha um monte de matérias na sexta, fiquei o dia na redação.  Vi A Teoria de Tudo, de James Marsh, que me tocou, e Eddie Redmayne já é meu pré-candidato no Oscar. A todas essas foram morrendo Rod Taylor, Francesco Rosi e Anita Ekberg. Anitona! No imaginário do cínéfilo, ela será sempre Silvia, a estrela de Hollywood em A Doce Vida, de Federico Fellini. O curioso é que li outro dia, nos necrológios de Louise Rainer, a primeira estrela a ganhar duas vezas o Oscar em anos seguidos, que Fellini escreveu um papel para ela em La Dolce Vita, mas não conseguiu convencê-la a voltar. Não consigo acreditar que fosse o papel de Silvia, e se foi mudou bastante para se ajustar a Anita Ekberg. Uma ex-Miss Suécia, ela foi aos EUA para participar do concurso de Miss Universo, mas não ganhou. Em contrapartida, iniciou carreira no cinema e fez filmes como Artistas e Modelos e Ou Vai ou Racha, de Frank Tashlin, com Jerry Lewis e Dean Martin. As participações foram crescendo, como seus atributos físicos. Depois de A Doce Vida, os fartos seios de Anita explodiram em As Tentações do Sr. Antônio, o episódio felliniano de Boccaccio 70, em que ela faz propaganda de leite e o jingle Bevete più Latte tira o juízo do cidadão Peppino di Filippo. Com Fellini, ela ainda faria uma pequena participação em I Clowns, em 1970, e outra maior em Entrevista, em 1987. Como Silvia, Anita virou um ícone – e inspirou filmes como o argentino Elsa e Fred, com China Zorrilla, papel que Shirley MacLaine retoma na versão norte-americana, em cartaz (ainda?) nos cinemas brasileiros. Embora Fellini tenha sido o ‘padrinho’ de Anita no cinema, elevando-a a outro patamar, ela já tinha uma extensa carreira no cinema, e ao longo dos anos 1950 fez, entre muitos outros, Abbot & Costello no Planeta Marte, Guerra e Paz, De Volta da Eternidade, Zarak e O Escudo Romano, em que interpretou Zenóbia, rainha de Palmira. Nos 60, apareceu, além dos filmes com Fellini, em Os Mongois,  Quatro Heróis do Texas (western cômico de Robert Aldrich, ao lado de Frank Sinatra, Dean Martin e Ursula Andress), Rififi no Safári, Um Biruta em Órbita, Malenka e numa bizarrice chamada A Freira Assassina. Foi casada com Anthony Steel e Rick Van Nutter, mas seu grande amor teria sido o milionário Gianni Agnelli, dono da Fiat. Quase 30 anos se haviam passado desde A Doce Vida quando ela fez L’Intervista. Estava gorda, dizia a Federico que não a filmasse, que estava feia, mas ele, com aquele charme, repetia – ‘Ma che dicce, te? Tu sei ancora una bella donna, Anita.’ E ela era. Por amor, Anita italianizou-se. Sempre soube que nunca quis voltar à Suécia, e menos ainda a Malmö, onde nasceu. Anita morreu aos 83 anos, numa clínica de Rocca di Papa, cidadezinha de 15 mil habitantes, onde vivia. Fecho os olhos, feche você também, e ela ressurge esplendorosa na Fontana di Trevi ou andando por aquele beco, atrás do gato, com Marcello (Mastroianni). Foram-se todos. Fellini, Marcello, Giulietta Masina, ela. São parte da lenda e Anita viverá eternamente como imagem na nossa lembrança.