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A eterna questão da moral dos travellings

Luiz Carlos Merten

22 de novembro de 2015 | 11h15

RIO – Quero ver se assisto hoje à tarde a um debate da Semana dos Realizadores. Construção e desconstrução do masculino/feminino no cinema brasileiro contemporâneo. O tema é urgente e se há uma coisa que tenho me esforçado é para entender mais essas questões de gênero que mexem com comportamentos antigos e colocam em xeque o que julgamos, o que eu julgo ser a minha tolerância. A propósito, achei muito interessante a entrevista de Slavoj Zizek na capa de ontem do Segundo Caderno do Globo, o impresso. O filósofo esloveno sempre levanta questões intrigantes e polêmicas. Como todo mundo que não seja fanático religioso, fiquei chocado e, mais que isso, angustiado pelos ataques do terror em Paris. Amo aquela cidade, na qual, pode parecer presunçoso dizer isso, sempre me senti em casa. Pergunto-me como será voltar a Paris, convertida em alvo prioritário do Estado Islâmico. Zizek levanta uma questão pertinente. Face ao fanatismo islâmico, o Ocidente foi promovido a um paraíso de tolerância multicultural. Mas será mesmo? Zizek observa que um Estado de Direito que garanta a existência de diferentes culturas não vai funcionar, pelo simples motivo que toda cultura não fala apenas sobre si mesma, mas prescreve como você deve lidar com outras. Você pode fazer piada com Deus, mas no Islã não pode invocar em vão o sagrado nome de Alá. Isso, em princípio, nos deveria fazer mais liberais etc, mas Zizek observa que dizer que no Ocidente se pode fazer graça de tudo é uma falácia. Tente fazer do Holocausto, e você será excluído. Toda cultura demarca limites, e eles deveriam ser tolerados, ou não? Fiquei com a entrevista de Zizek na cabeça e a perturbação cresceu quando vi ontem à tarde na Semana o filme pelo qual já valeria ter vindo ao Rio, Vers Madrid, na retrospectiva de Sylvain George. Confesso que não conhecia o diretor, que já havia sido homenageado, em agosto, no Fronteira, Festival de Cinema Documentário Experimental, em Goiânia. Por conta do meu voo complicado para o Rio perdi a master class de Sylvain na sexta-feira à tarde, mas vi seu filme sobre as manifestações populares que agitaram a Espanha em 2011, 2012… Republicanismo, fim do direito divino da monarquia, dos privilégios dos bancos, da corrupção da realeza. O povo, unido, jamais será… Emocionei-me muito por ver aquela juventude unida a velhos republicanos, mas principalmente ao ver o que no catálogo está definido como encontro entre a dissonância e a resistência, uma abertura para a contradição, o vislumbre do futuro. O carinha discursa para os soldados fortemente armados. Tira a roupa, joga documentos no chão. Abdica da sua identidade. Nu e indefeso diante dos Rambos programados para bater e, no limite, matar. Os limites da contestação e da tolerância. Surtei com o filme. Outros títulos mexeram comigo. La Mer Larme, o novo Carlos Adriano. Mer, mal à l’aise. E O Que Eu Poderia Ser Se Eu Fosse, de Bruno Jorge, que documenta/estetiza/problematiza a gravidez da mulher dele. O processo de gestação do filho e do filme. Reality shows, Facebook. Não existem mais limites entre o público e o privado, ou são cada vez mais tênues. Tenho acompanhado, en passant, as reações da imprensa ‘especializada’ ao novo filme de Angelina Jolie, À Beira-Mar. Brad Pitt e ela fazem um casal em crise. Hollywood Report, Variety estão escandalizadas com o grau de exibicionismo do casal. Eu estou muito curioso para ver. Respeito demais a diretora, pelos seus filmes, para ser influenciado pela opinião de quem quer que seja, e muito menos por essas revistas. O que o casal 20 tem a ver com casal anônimo de O Que Eu Poderia Ser…? Tudo. Os problemas de exposição, de criação só são potencializados e ampliados (lá). Não é que já não fosse, mas, cada vez mais, o cinema autoral é uma questão de ética. A moral como uma questão de travelling da (velha) nouvelle vague.