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À espera de Luchino

Luiz Carlos Merten

23 de fevereiro de 2018 | 18h14

Preparei, para o impresso, um texto sobre a retrospectiva de Luchino Visconti que começa na quinta, 1.º, no CineSesc e me peguei tendo de repensar a obra de um dos grandes autores do cinema, por quem tenho um carinho especial. Visconti fez um dos filmes da minha vida, e talvez ‘o’ filme, Rocco e Seus Irmãos. Vi Rocco ainda jovem, certamente há bem mais de 50 anos, 55, por aí, e depois revi muitas vezes. Nunca saiu do meu panteão, com Rastros de Ódio, Hiroshima Meu Amor, O Intrépido General Custer, A Primeira Vitória, Terra, O Bandido Giuliano e Selva Trágica. Às vezes penso se deveria acrescentar a essa lista sucinta de preferências Romeu e Julieta nas Trevas, tão belo, ou o Sansão de Andrzej Wajda, que não dispõe de uma grande reputação, mas me caiu como um raio quando o vi. (O melhor filme de Holocausto, e o vi só uma vez. De tanto reconstruir o filme no meu imaginário já devo ter refeito uns dez, não duvido que diferentes do original.) Mas Visconti! Não sei se conseguirei rever todos os 17 filmes, incluindo três curtas em filmes de episódios (O Trabalho é média, tem uma hora), mas gostaria. Vou tentar, incluindo Rocco, claro, e Vagas Estrelas da Ursa, que revi em Paris, no ano passado. Marie Bell naquele piano, César Frank! Quero rever principalmente La Terra Trema, Sedução da Carne, O Estrangeiro e Morte em Veneza, pelo qual nutro sentimentos contraditórios. O ‘tempo’ do filme é deslumbrante e Visconti transformou o escritor do livro de Thomas Mann em músico justamente porque queria usar sinfonias de Gustav Mahler para embalar a história de Gustav (o próprio Mann pensou no personagem como músico, inicialmente) Von Aschenbach e seu deslumbramento pela beleza andrógina do jovem Tadzio. Já contei como, sentado no Grand Salon do Hotel des Bains, em Veneza – para entrevistar James Ivory -, esperava a todo momento ver entrar Silvana Mangano, como a mãe de Tadzio. Belo como é, o filme me confunde porque a degradação física do personagem de Dirk Bogarde vem acompanhada, para mim, de um miserabilismo que transforma a homossexualidade, apenas aflorada, em maldição. Visconti me convida sempre a viajar nas minhas emoções mais fundas. Sinto que essa retrospectiva, na minha fase atual, vai mexer comigo.

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