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A chave de À Beira-Mar está no pescador solitário

Luiz Carlos Merten

06 de dezembro de 2015 | 18h39

Ao contrário da maioria dos coleguinhas, respeito muito Angelina Jolie, agora Jolie-Pitt, como diretora, mas gosto mais de Na Terra de Amor e Ódio e Invencível que de À Beira-Mar, que vi somente ontem. O novo filme é mais pessoal e talvez seja até mais bem feito, mas eu, pelo menos, não consegui me convencer com a crise daquele casal, por mais que Angelina, como roteirista e diretora, recheie sua história de informações e observações tão sutis – o filme, afinal, é ‘europeu’ – que a maioria não entendeu. Dei-me ao trabalho de fazer uma pesquisa. Raramente, interesso-me pelo que outros escrevem, mas, em determinados casos, fico curioso, e esse foi um deles. Encontrei os desaforos de sempre – ‘é o melhor dos três filmes, mas isso não representa grande coisa’, a autora é ingênua etc, mas o melhor foi o link que encontrei numa das ‘críticas’ para a lista de Top Ten da revista Time. Sorry, mas não consegui conferir porque deu sei lá que problema com meu computador em casa e a lista não abriu, mas havia um comentário de ‘mi’, seja lá quem for, sobre os dez piores (esses deu para abrir), perguntando onde estava 50 Tons de Lixo. Imagino que o cara, para ser crítico de Time, tenha de ser minimamente competente e, nesse caso, é claro que não vai colocar 50 Tons entre os piores, mesmo que também não o inclua entre os melhores. A vida não é preto no branco, existe uma larga margem ‘cinza’ in between, e é disso que trata o longa de Sam Taylor-Johnson, que deve tanto ao best seller de E.L. James quanto ao Alfred Hitchcock de Psicose e Marnie, as Confissões de Uma Ladra (que são diferentes versões do mesmo filme)), no mesmo sentido em que No Coração do Mar, de Ron Howard, deve tanto a Moby Dick, de Herman Melville (e ao livro de Nathaniel Philbrick sobre o episódio do Essex), quanto ao western crepuscular de John Ford, O Homem Que Matou o Facínora, com John Wayne e James Stewart. Angelina Jolie demorou para engravidar e, enquanto Brad e ela tentavam, o casal adotou aquela verdadeira creche de refugiados, e não digo isso como nenhuma forma de desrespeito, pelamor de Deus. Talvez a questão da gravidez, embutida em À Beira-Mar, pareça pouco relevante para quem não se interessa pelo assunto, mas com certeza tem outro peso para quem está na contramão. A personagem fechou-se, o marido escritor fica paralisado e, à maneira de 50 Tons, ambos buscam uma saída. Poderia ser, talvez, o sadomasoquismo, mas é o voyeurismo, até porque é bem excitante ficar olhando um casal bonito como Melanie Laurent e Melvil Poupaud. Brad, por exigência do papel, está caído, Angie, do ponto de vista puramente estético, tem pernas finas e nenhuma bunda. Digamos que há alguma autocrítica na decisão dela, como diretora, de filmar o outro casal. Mas eu acho que as chaves, no plural, para o que a diretora quer dizer no filme são – 1) a figura do pescador, cujas idas e vindas a personagem acompanha da sacada do quarto no hotel; e 2) a trilha, menos a partitura de Gabriel Yared e mais as canções de Serge Gainsbourg interpretadas por Jane B, de Birkin. Os dois, por sinal, formavam na França, em sua época, e o filme também é ‘francês’, um casal escandaloso e até narcisista (Je t’aime, moi non plus…) como Brad e ela são considerados hoje, em Hollywood. E a verdade é que o mal-estar existencial não se soluciona nem quando é fornecida a chave da infertilidade. Jeanne Moreau lia a carta de Marcello Mastroianni no final de A Noite, ele chorava, mas alguém, honestamente, acredita que a aurora trazia uma esperança para aquele casal de Michelangelo Antonioni? O toque final, aqui, estabelece a cumplicidade, mas também não resolve nada. Achei À Beira-Mar lindo, muito bem filmado e editado – o ritmo do casal, na primeira metade, a aceitação da perversidade de ambos e o reencontro dele como artista, quando começa a ‘narrar’ (de forma idealizada e sem sequer olhar pelo buraco na parede) o que ocorre no quarto ao lado. Mas, se o filme explica alguma coisa, é através do pescador. A maré, que vai e vem. O mal-estar não leva jeito de se extinguir, é o que diz a maré. Interessante, mas os dois filmes anteriores, e o poderoso Invencível – a cena em que o soldado norte-americano, liberto, entra no quarto espartano do japonês – me atraem muito mais.