A carta que não foi enviada
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A carta que não foi enviada

Luiz Carlos Merten

14 de fevereiro de 2014 | 23h00

 

BERLIM – Não, o título não se refere ao filme famoso do russo Mikail Kalatozov. É tarde aqui, mais de uma e meia (da madrugada), e preciso dormir, mas preciso acrescentar que vi a gala de Little House, o novo Yamada. No ano passado, ele não tinha vindo apresentar Família em Tóquio – em cartaz no Brasil -, mas não por problemas de saúde e sim, porque já trabalhava no filme atual. Yamada é estiloso, pessoalmente.; Procurem as fotos no site da Berlinale. O que mais me surpreendeu foi que, nos autógrafos das fotos oficiais – a que já me referi em outro post -, ele assinou ‘Youji’. Achei que era isso ao acompanhar no telão e fui lá conferir, depois da sessão. Youji. Pequena Casa conta uma história de adultério no Japão dos anos 1930/40. Quem narra é a doméstica que acaba de morrer e que deixou, inacabado, esse projeto de livro autobiográfico. Em pleno esforço de guerra, a patroa desafia os códigos vigentes, mas nunca fica claro se ela realmente cometeu adultério ou se foi uma relação platônica. De qualquer maneira, na rígida sociedade japonesa, é desonroso para uma mulher. Quem acompanha Yamada, sabe. Além de sua série É Triste Ser Homem, com mais de 30 títulos, ele fala de outras tristezas – de ser samurai, de ser mulher -, num mundo que discrimina e marginaliza. A doméstica morre solteira, e velha. Pouco antes, o sobrinho a encontra aos prantos, dizendo que (ela) não esperava ter vivido tanto. Entre seus pertences reaparece uma carta que nunca foi enviada, e por que? Para proteger a patroa, ou por que Taki – é seu nome, Taki-dear, Taki-querida – também amava o romântico cartunista que, como ela, idealizou a casa do título? Me haviam dito que o filme de Yamada era bonito, mas melodramático, sentimental – o que não é a mesma coisa. Muitas vezes, o acho muito derramado, e gosto dele por isso. Desta vez, achei-o mais seco. Seu filme não é só um romance. Retrata as transformações do Japão antes e depois da 2.ª Guerra. E, apesar da mudança de tom e de foco, achei-o similar ao de outro japonês, o mais duro Koji Wakamatsu, que passou aqui em Berlim há alguns, sobre aquele soldado que volta da guerra reduzido a um tronco e todo mundo cobra que a mulher permaneça devotada a ele, que, além de tudo, e ao contrário do desenhista de Yamada, é um compulsivo sexual. O filme chama-se Caterpillar, lembram? Sou fiel a meus velhos, já disse. Yamada me tocou, e encantou. Sua jovem atriz, Haru Kuroki, é ótima.

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