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A beleza ‘colateral’ da morte

Luiz Carlos Merten

13 Janeiro 2017 | 11h05

BUENOS AIRES – Fomos ver ontem, Dib Carneiro e eu, Beleza Inesperada. O longa de David Frankel com Will Smith vai se chamar no Brasil Beleza Oculta. No original, é Collateral Beauty. O que existe de belo na morte de uma pessoa, no ato ou fato de perdermos um ente querido? Não estou muito seguro de ter captado a intenção de Frankel. Gostei mais de O Diabo Veste Prada e Marley e Eu, que, de alguma forma, tornavam mais transparente essa beleza colateral da morte – no trabalho (em Prada), na família (em Marley). A beleza está na superação, na purgação pelo sofrimento? Há expectativa de que Will Smith vá para o Oscar, e, se não for ele, outro afro-americano terá de estar na disputa. A Academia não vai deixar os negros dois anos seguidos fora da competição. No ano passado, já houve aquela gritaria, e sem Donald Trump na Casa Branca. O ator de Moonlight, de Barry Jenkins, parece outra possibilidade. Não sei nem se merece, mas, a julgar pelos elogios que ouço para o filme, é muito provável que sim. Beleza Inesperada. Um homem desespera-se ao perder a filha. Escreve cartas amarguradas ao tempo, ao amor, à morte. Os sócios, que tudo devem a ele, exasperam-se. A firma está indo para o brejo. É preciso salvá-la, ou salvar-se. Bolam um plano. A realidade intervém na fantasia. O filme será distribuído no Brasil pela Warner, que também distribuiu O Vendedor de Sonhos. Conversamos sobre os filmes, durante o jantar, Dib e eu. Muita auto-ajuda para o gosto dele, demais para mim. Mas Beleza Oculta tem elementos para ir bem. O curioso é que, sem morar debaixo da ponte, como César Trancoso na fantasia de Jayme Monjardim e Augusto Cury, Helen Mirren faz um tipo, uma atriz, meio andrajosa (ou riponga, que seja). Augusto Cury deve estar ganhando rios de dinheiro – auto-ajuda vende como água, é só o que tem nas livrarias -, mas fica batendo na tecla de que dinheiro não é o mais importante. Ah, claro, não é quando se tem. Helen Mirren é mais realista (ou David Frankel será cínico?). Ela aceita o cheque e ainda pede aplauso. Quando virem vocês vão entender. Sou capaz de fazer das tripas coração para descobrir as qualidades de Assassin’s Creed, mas Beleza Inesperada não dá. E eu detesto essa auto-ajuda feita de banalidade, e que nem bem escrita é. Augusto Cury, Marta Medeiros. Todo ano folheio o novo livro dela na Laselva de aeroportos para comprovar como não estou perdendo nada. Mas se é isso que faz o público feliz…