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‘À Beira do Abismo’

Luiz Carlos Merten

12 de novembro de 2012 | 09h14

Conta a lenda que Howard Hawks, confuso diante da teia de assassinatos de ‘The Big Sleep’, teria pedido ajuda ao próprio escritor Raymond Chandler, mas ele só aumentou a confusão ao dizer que não sabia quem havia matado quem, nem porquê. “The Big Sleep’, com  o título de À Beira do Abismo, virou um dos grandes filmes de detetives do cinema, e um marco na parceria entre Hawks e o astro Humphrey Bogart. São histórias tão boas que a gente nunca sabe se são verdadeiras ou se, como dizia o editor no western de John Ford – ‘O Homem Que Matou o Facínora’ -, ‘publique-se a lenda’. Dois anos antes de ‘À Beira do Abismo’, Haks reuniu pela primeira vez Bogart e uma novata alta, voluntariosa, de farta cabeleira e olhar selvagem, Lauren Bacall. A eletricidade entre eles foi imediata, tiveram um affair tórrido e se casaramn – depois de ‘À Beira do Abismo’, o que levou Hawks a chamar a dupla de volta para filmar cenas adicionais (com ênfase no sexo). A grande história – o primeiro filme da dupla Bacall/Bogart teria nascido, ou nasceu, de uma aposta de Hawks com Hemingway. O diretor teria dito, ou disse, ao escritor que conseguiria fazer um bom filme de sua pior história, Hemingway colocou na roda ‘To Have and To Have not’, Hawks topou e fez ‘Uma Aventura na Martinica’. Provavelmente estaria contando essas história, e só elas, se não tivesse revisto ‘À Beira do Abismo’ , que sai em DVD pela Versátil. Puta filme. Dá para ver umas 30 vezes sem conseguir entender a trama, e daí? ‘À Beira do Abismo’ tem o diálogo de duplo sentido mais sexy do filme noir, grandes cenas de ação e uma galeria inesquecível de personagens femininas, a comerçar pela herdeira Lauren Bacall e sua irmã ninfomaníaca, Martha Vickers, que vive com as chamadas ‘más companhias’. O pai das duas contrata Philip Marlowe para se livrar do homem que o ameaça por conta das dívidas de jogo de Martha – e também para descobrir o que ocorreu com seu antigo assistente. O filme já estava pronto quando Hawks resolveu, quase um ano depois, filmar novas cenas com Bacall e Bogart. Danny Peary, em seu ‘Guide for the Film Fanatic’, talvez seja o único a reclamar (em termos) da dupla de protagonistas. Mas ele acha que Bacall e Bopgart eram mais ‘espontâneos’ em ‘Uma Aventura na Martinica’ e que agorta, como ‘dona’ do homem, ela talvez esteja um poucvo confortável demais na pele da provocadora (que sabe que já conseguiu o que queria). É uma observação interessante, talvez pertinente, mas que não interfere em nada no que o filme tem de melhor e é a hostilidade que Bogart, como Marlowe, desperta em toda parte. Isso o obriga a viver em guarda  e a despejar os diálogos cheek and tongue, não necessariamente ligados as sexo, mas que excedem quando o assunto é esse. Provavelmemnte não estaria me lembrando, se não tivesse revisto o filme, do diálogo sobre cavalos e selas, e a arte de cavalgar, que é um regalo. Hawks e seus roteiristas – o casal Leigh Brackett e Jules Furthman, um certo Wilkliam Faulkner – vão tão longe quanto possível e mais além, ao enfrentar e driblar a censura do Código Hays, que disciplinava o uso do sexo e da violência no cinema de Hollywood. Neste sentido, conseguem ir mais longe do que Michael Winner que, em outro quadro – de permissividade, entre outras coisas -, fez sua adaptação (de merda…) da mesma história, em 1978. Robert Mitchum foi o Marlowe de Winnner, vencedor só no nome, e se o filme saiu ruim, como é, a culpa não foi dele. No Brasil, chamou-´se ‘A Arte de Matar’. Só como curiosidsade, os anos 1970 assistiram a um revival de Bogart, de filme noir, de detetives privados e mulheres fatais. Paul Newmanm fez suas boas adaptações de Lew Harper (Archer nos livros de Ross MacDonald), mas o melhor de todos os filmes daquela época, a menos que a memória me traia, é ‘O Último dos Valentões’ (Farewell, My Lovely), de Dick Richards, com Mitchum (de novo) como Philip Marlowe e Charlottre Ramkpling perfeita como femme fatale.

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