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A Antígona do Ágora – necessária!

Luiz Carlos Merten

18 de setembro de 2017 | 09h18

Havia amado a Antígona de Andréa Beltrão e Fernando Haddad – brinco, o diretor é Amir Haddad. Fui ver no sábado a de Celso Frateschi, com direção de Moacir Chaves n o Ágora. Gostei muito. Houve alguns tropeços, nada que comprometesse o alto nível do espetáculo. Celso e Pascoal da Conceição engasgaram aqui e ali no texto – Celso chegou a errar o nome da mulher de Creonte, seu personagem -, mas Naruna Costa – ainda mais bela fora de cena – foi gloriosa como Antígona e sua irmã, Ismênia. A Antígona de Sófocles virou um texto clássico ao contrapor dois direitos, o de família e o do Estado. Antígona quer enterrar o irmão, Creonte, usando seus poderes ditatoriais, tenta impedi-la. Ai de mim, bradam a heroína e o rei, quando se desencadeia a sucessão de infortúnios. Gostei muito da concepção cênica, do rigor, do cenário e figurino de Sylvia Moreira e da trilha de Daniel Maia. E amei a Naruna, a quem não conhecia. Pascoal me soprou e Naruna confirmou que vai fazer o Marighella de Wagner Moura. Poderoso Wagner. É bom se blindar como Capitão Nascimento, porque o Brasil atual está regredindo. Celebram-se avanços na economia que ainda não ocorreram, o Congresso blinda o presidente – Buemba, buemba, José Simão: como se chama o mandatário no sistema presidencialista? Chefe de quadrilha! – e a Justiça… Um juiz de Guarulhos soltou um pai que bateu na filha com fio e raspou o cabelo dela porque mão era mais virgem. O juiz reconheceu o direito do pai de ‘corrigir’ a perdida. Em Porto Alegre, houve o imbróglio da exposição do Santander. Uma coisa é o banco recuar, e mesmo que o recuo vá na contramão da publicidade com que enche aeroportos do Brasil e do mundo -, outra coisa é a cegueira da Justiça. Ai de nós. No final da Antígona, encerrado o espetáculo, os três atores manifestaram-se contra o atual estado das coisas. Outro juiz proibiu, em Jundiaí, peça que representaria Cristo como mulher transgênero. Estamos chegando ao nível dos fundamentalistas islâmicos, só que eles foram saudados como bestas do apocalipse e, agora, esses avanços da reação (recuos do Direito?) fazem-se de forma quase natural. Como dizia o Brecht – levaram meu amigo, meu vizinho, meu irmão e eu não protestei. Agora estão me levando. Quem protestará? E o pior é que nada disso é isolado. O horror está de volta.

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