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Quase 20 anos depois

Luiz Carlos Merten

12 de novembro de 2013 | 09h03

Comprei no sábado umas estantes – duas – para tentar dar um pouco de ordem na minha casa, que virou uma confusão. Tem livros e DVDs espalhados por todo lado. As mesas e cadeiras da sala estão cheias de livros, sobrou um cantinho onde coloco o laptop para poder postar. Comprei um I-Pad na minha última viagem a Los Angeles – a entrevista com Harrison Ford -, mas, sinceramente, não sei onde está. Fui colocando livros e revistas em cima. Qualquer dia encontro. Vocês devem achar que faço gênero, mas é verdade. O pior é que as duas estantes vão ficar abarrotadas e a confusão na casa não vai melhorar. Fuçando nessas pilhas de livros encontrei um, Folha Conta 100 Anos de Cinema, que deve remontar a 1995. Justamernte – parei para conferir e cá está a dedicatória do organizador, Amir Labaki, 18 de 9 (setembro) de 95. O livro oferece uma coletânea de ensaios ilustrativos do título. Alguns textos do próprio Amir, muitos de Sérgio Augusto, um que outro de Inácio Araújo (sobre Alfred Hitchcock e Yasujiro Ozu), um do próprio patrão, Otávio Frias Filho, sobre Steven Spielberg, e o que me deu mais prazer de ler – o de Paulo Francis sobre John Huston. Francis escreve que o cinema de Huston é macho como ele (o diretor, não Francis). O homem é realizador, mas predatório, autodestrutivo. A mulher adoça, civiliza a vida do homem. Não há confusão de sexo, essa história do Laerte de que ‘gênero’ é invenção da cultura. Hu-hu. (O aposto foi meu. Francis não viveu para ver o Laerte desfilar, como me mostraram a foto, num evento de moda.) Até quando Huston retrata um homossexual, Marlon Brando em Os Pecados de Todos Nós, a sexualidade de Brando é explosiva. É o meu Huston preferido, já disse e repito. Não teria sido a mesma coisa, se Huston tivesse feito o filme com Montgomery Clift, como pretendia, inicialmente. Clift morreu pouco antes do início da filmagem. Com ele, que era gay – Brando, ao que consta, era bissexual, o que é outra coisa -, ia ficar uma coisa meio miserabilista, tipo Dirk Bogarde derretendo-se em Morte em Veneza, do meu amado (mas não naquele filme) Visconti. Já imaginaram a cena da aula, quando o protagonista divaga sobre o desejo? Brando dá uma intensidade de arrepiar à cena, Monty, por melhor ator que fosse, a faria piegas (acho). Por que estou divagando sobre isso? Porque gostei do texto do Francis, claro, mas também deve ter algo a ver com o Mix Brasil, onde fui no domingo e pretendo voltar hoje, para ver Além da Fronteira – se conseguir. Tenho um compromisso às 4 da tarde em Alphaville. O Mix, ao contrário do cinema de Huston, é uma confusão só (de gênero e sexo). Não estou criticando – eu? -, estou constatando. Mas o que quero comentar é uma história que Orlando Margarido me contou e parece que foi para a capa da Folha. Na abertura do Mix, e para não constranger as ‘autoridades’ – a ex-sexóloga Marta Suplicy (mas uma vez sexóloga, sempre sexóloga; me lembro da Maria Aparecida Vieira Souto, quando produizia o programa de Tânia Carvalho, ensinando as mulheres, pelo rádio!, a fazer sexo oral; juro que, de alguma forma, Woody Allen se apossou da cena naquele filme com Judy Davis; era hilário) -, os organizadores, leia-se André Fisher, cortaram um minuto mais hard de Interior, Leather Bar, de Travis Mathews e James Franco. Mas é verdade? Um filme cujo conceito é reconstituir o que foi cortado de um filme cult, Parceiros da Noite, justamente porque era muito ousado para os anos 1970? E se corta uma chupadinha, num evento transgressor, em 2013? Estou pasmo.

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