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O mestre sem estilo

Luiz Carlos Merten

02 de novembro de 2013 | 11h22

O outro livro a que me referi no capítulo anterior é o de Gabriel Miller sobre William Wyler – The Life and Films of Hollywood’s Most Celebrated Director. Miller aborda mais os filmes que a vida e certamente omite detalhes que apimentaram o livro A Talent for Trouble, de  Jan Herman, de 1955. Herman resgatava coinfissões de uma ex-mulher do cineasta, Margaret Sullavan, que sempre declarou que ele era ‘terrible’ na cama, e você é livre para imaginar o que isso significa. Wyler foi, realmente, o mais prestigiado diretor de Hollywood do final dos anos 1930 a meados dos 50, mas, por volta de 1960, com a erupção da nouvelle vague na França e a consolidação da politique des auteurs, ele passou cada vez mais a ser reavaliado, e desconsiderado. O próprio André Bazin, que o colocava num panteão por seu estilo baseado na profundidade de campo, moderou seu entusiasmo por Wyler no fim da vida. E o estilo? Criou-se a fama do cineasta bom com atores, especialista em roteiros de abordagem psicológica, mas irremediavelmente sem estilo. Isso terminou por originar a piada incorporada pelo próprio Wyler, que fez gravar em seus cartões ‘ancienne vague’, velha onda, para se opor à nova, de Godard e Truffaut. A despeito de certas generalizações apressadas ou superficiais, achei o livro de Miller bem interessante e Wyler emerge de sua análise como grande artista. O que sempre se discutiu em Wyler foi o desconforto produzido por uma aparente contradição. Sua mise-en-scène é baseada no campo total, o que o vincula ao realismo e dá ao espectador a possibilidade de fazer, com o olhar, os próprios cortes na cena. Por isso mesmo, Bazin o vinculava ao neo-realismo, mas não existe nada menos neo-realista, aqui a contradição, que o gosto wyleriano  pelos elementos visuais com que gostava de construir suas histórias. Miller descreve as cenas de um jeito que até filmes que nunca vi – Dodsworth – passaram diante de meus olhos como imagens em movimento. Mas o que mais gostei foi da análise socioeconômica, ou sociopolítica. O Wyler que voltou da 2.ª Guerra foi um diretor que, pelos anos seguintes, não fez outra coisa senão refletir sobre o capitalismo, a estrutura social (as ‘classes’), a guerra e o pacifismo. Desde os soldados inadaptados ao tempo de paz de Os Melhores Anos de Nossas Vidas e, mais tarde, durante o macarthismo, o desgosto provocado pela competitividade na essência do american dream, a obra de Wyler possui uma consistência temática muito maior do que somos tentados a acreditar. E revi, documentado, o registro da altivez de Wyler, como a de John Ford e John Huston, perante o Huac, o Comitê de Atividades Antiamericanas do Senado. Há todo um capítulo, The Pacifist Dilemma/O Dilema Pacifista, dedicado a Sublime Tentação, Da Terra Nascem os Homens e Ben-Hur, e que, nas qualidades como nos defeitos, vê em cada um desses filmes tomadas de posição sobre as grandes questões da época. Achei tudo muito bem fundamentado e fascinante,  mas confesso que fiquei em dúvida diante do excesso de entusiasmo de Miller pelo último Wyler, A Libertação de L.B. Jones, de 1969, cujo fracasso comercial ele credita ao fato de o filme, sobre o racismo, estar muito adiante de sua época. É curioso porque, por volta de 1970, tive exatamente a sensação oposta – de que era um filme de velho. Só sei que, depois de ler William Wyler, a revisão de Gabriel Miller, fiquei doidinho para rever seus filmes. Talvez os reveja, até aqueles de que não gosto (Rosa da Esperança, Os Melhores Anos etc), com outro olhar. Quem sabe?

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