As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Lenda americana

Luiz Carlos Merten

02 de novembro de 2013 | 10h49

Comprei dois livros na minha recente viagem a Los Angeles – haverá outra no dia 15 -, mas depois, por conta da correria das Mostra, não tive tempo nem condições de voltar a eles. Um sobre John Ford – The Searchers: The Making of na American Legend, de Glenn Frankel – e outro sobre William Wyler, de Gabriel Miller e que leva simplesmente o nome do diretor. Esmiuçando a obra-prima fordiana, um dos filmes que me levaram a querer conhecer o espaço sagrado de Monument Valley, Frankel vai às fontes históricas e revela detalhes biográficos do grande Ford que não conhecia. Imagino que uma biografias dessas fosse ter problemas no Brasil atual, onde o assunto não para de render polêmica. Apesar de muito ter lido sobre Rastros de Ódio, western mítico, nunca soube da veracidade da base da trama.Houve uma Cynthia Ann Parker que foi sequestrada por Comanches em 1836 e se tornou mulher de um grande chefe, com quem teve filhos e um deles foi Quanah Parker, futuro traidor (talvez) de seu povo, porque, ao ser privada da mãe, resgatada por um tio que nunca desistiu de procurá-la e pela Cavalaria, dedicou sua vida a promover o diálogo entre brancos e índios, e os primeiros foram reduzindo cada vez mais o espaço dos segundos no Oeste. O tio da história real era um reverendo Parker que deixou um rastro de sangue e violência por onde passava, escalpelando índios. A história de Cynthia fez parte da tradição oral e escrita do Velho Oeste – o triunfo da civilização branca e o resgate da mulher profanada pelos ‘selvagens’ e nunca ninguém se preocupou pelo fato de Cynthia, estigmatizada, ter morrido abandonada e pobre. Ford contou essa história deslocando o eixo para o tio, que fez interpretar por um ícone de Hollywood, John Wayne, e Ethan Edwards é o mais trágico, racista e solitário herói de sua carreira. A propósito, Quentin Tarantino, na época de Django, andou atacando o racismo de Ford, ai, meu Deus. Frankel faz um retrato sombrio de Ford na abertura de seu livro. O capítulo fundador chama-se ‘Pappy’ e descreve Ford num momento de crise. Em meados dos anos 1950, ele estava bebendo demais e era irascível, hostilizando e humilhando até os próximos. Frankel mostra um lado sombrio que nunca conheci e que tornou o personagem ainda mais complexo. Sempre me impressionou muitoi o rompimento de Akira Kurosawa com Toshiro Mifune, porque o astro ousou interpelá-lo sobre o personagem que interpretava em O Barba Ruiva. Kurosawa riscou-o do mapa, nunca mais se falaram. Velho louco. Ford também era assim. O fotógrafo Winton Koch ‘ousou’ sugerir-lhe um ângulo de câmera e Ford o humilhou diante de toda a equipe, perguntando quem ele achava que era para querer lhe ensinar o que era seu (de Ford) ofício? Com Henry Fonda foi pior. O pai de Jane interpretou no teatro Mr. Roberts por não sei quanto tempo. Tinha uma concepção do personagem, mas se bateu para que Ford fosse o diretor, o que Jack Warner não queria, talvez antecipando os problemas. Fonda não andava muito satisfeito com a direção de Ford, a quem chamava de Pappy, mas aguentava calado. Um dia, Ford interpelou-o e ele tentou argumentar alguma coisa na contramão do que Pappy queria. O velho simplesmente tascou a mão na cara dele. Esbofeteou-o e, mais tarde, bêbado, foi pedir desculpas, mas o espelho já estava partido. Ford teve um problema de saúde, foi hospitalizado, Mervyn Leroy terminou a filmagem e nunca mais se falaram, o diretor e seu astro (em tantos filmes importantes). Numa comemoração de Natal, Maureen O’Hara foi à casa de Ford, disse alguma coisa da qual ele não gostou e Ford simplesmente deu-lhe um soco na cara, mais que uma bofetada. Ninguém ligou, foi como a coisa mais natural do mundo. Anos mais tarde, numa entrevista e não para se vingar, mas para tentar entender ou explicar os humores de Ford, Maureen contou que, certa vez, entrou sem bater no trailer do grande diretor e encontrou o notório garanhão – Ford teve casos célebres, inclusive com Katharine Hepburn – aos beijos com o ator. Como é difícil imaginar a cena com John Wayne, é mais provável que tenha sido com Tyrone Power, que era bissexual, e com quem Maureen fez A Paixão de Uma Vida/The Long Gray Line, sob a direção de Ford. E foi nessas circunstâncias que Pappy completou Rastros de Ódio, estabelecendo um padrão de ambiguidades sem precedentes no gênero que ajudou a fundar. É verdade que O Proscrito, Flechas de Fogo e Matar ou Morrer foram arranhando e escavando standards, mas foi com Ford, em Rastros de Ódio, que racismo, sexualidade e violência irromperam no primeiro plano e se converteram na própria matéria, na própria essência da obra. E isso só foi se acentuando, depois, em  Audazes e Malditos, Terra Bruta, O Homem Que Matou o Facínora e Crepúsculo de Uma Raça. O livro tem um capítulo final, um epílogo, em Quanah, Texas, em junho de 2011. Todos os anos, os descendentes de Cynthia e Quanah Parker se reúnem para honrar os antepassados. Li o livro, confesso, embargado de emoção. Tantos detalhes o tornaram ainda mais rico, mas, no limite, é o filme que me fascina, a cena em que John Wayne, no fim da caçada, abre os braços para acolher Natalie Wood. Parece tão simples, e aquilo é o cinema, para mim. Glenn Frankel desvenda o véu de como, na verdade,. foi complicado chegar até ali.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: