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O Deserto dos Tártaros

Luiz Carlos Merten

30 de outubro de 2013 | 10h10

Sorry, mas tenho enganado vocês, e não por vontade própria. No outro dia, anunciei a crítica de O Conselheiro do Crime, mas ela caiu, por problemas de edição, e só volta ao Caderno 2 – espero – amanhã. Da mesma forma, disse que estaria ontem num debate com Michel Ciment sobre O Sol. por Testemunha, mas não só o evento não era ontem como foi cancelado. Era uma atividade programada para o lounge da Mostra, às 11 da manhã de hoje, mas como todos os encontros nesse horário foi extinto por falta de quórum. Leon Cakoff detestava quando eu fazia comparações entre a Mostra e o Festival do Rio, mas assim como as sessões da meia-noite de lá são mais animadas (e numerosas), os cinéfilos do Rio, com praia e tudo o mais, são mais chegados a uma discussão.; Mediei vários debates e eles tiveram maior ou menor público, mas nenhum foi cancelado, e olhem que se realizam no Píer Mauá, completamente fora de mão, numa área de difícil acesso e com dificuldade maior ainda para sair de lá, devido às obras que transformaram a região num imenso canteiro, mas não me queixo. Adorei que não tenha tido a mediação sobre Plein Soleil porque pude ver a versão restaurada de O Deserto dos Tártaros, de Valerio Zurlini. Ao entrar no CineSesc, dei de cara com a foto de Carlos Reichenbach. Lembrei-me muito dele. Carlão amava Zurlini e certamente teria ido ontem rever o filme. Não havia muita gente, éramos – na verdade – poucos. Meia sala, acho que menos, mas sentamos, Dib Carneiro, Thiago Stivaletti e eu na lateral esquerda e, no final, o Thiago sentenciou – a Mostra poderia terminar aqui, agora (com o réquiem de Zurlini). O Deserto dos Tártaros sempre esteve na mira do cinema, mas, durante muito tempo,. e por muitos autores, foi considerado impossível de adaptar. Até Michelangelo Antonioni tentou, mas desistiu. O romance de Dino Buzzati já estava destinado a Zurlini, antes mesmo que ele assumisse o projeto. Toda a obra de Zurlini, como a de Buzzati, é uma longa preparação para a primeira noite de tranquilidade, a morte, e esse é o tema do Deserto. Homens – militares – numa fortaleza. Zurlini não era gay, mas há uma tensão homoerótica entre Jacques Perrin e Helmut Griem, como havia entre Perrin e Marcello Mastroianni, mesmo que os personagens fossem irmãos, em Dois Destinos. Sempre achei que quem entendeu isso foram os irmãos Wachowski, e por isso fizeram aquele filme da velocidade, o Speed, que parece na contramão do Zurlini, mas tem tudo a ver. Os homens esperam naquela fortaleza. Esperam o quê? O ataque do inimigo? Tombam vítimas de uma estranha doença que ninguém diagnostica (o mal do deserto?) e dos conflitos entre eles. O livro é intemporal, mas Zurlini situou-o na derrocada do império áustro-húngaro e filmou num forte no Irã, que é um dos parceiros da produção. Curioso – mas se há um tempo, e uma derrocada no filme, o Irã também vivia o fim do reinado do Xá. Nunca me havia dado conta disso. Os grandes diretores iranianos (Abbas Kiarostami à frente) sempre assumiram sua dívida com o neo-realismo. Será que o fato de Zurlini ter estado ali influenciou alguma coisa? Zurlini filtra Buzzati por Kafka e ele, que sempre pautou seu trabalho pela pintura – Dois Destinos, Cronaca Familiare se passa como um quadro, ou quadros, de Giorgio Morandi -, aqui põe na tela a pintura metafísica de De Chirico. Depois daquela merda do Tsai, sorry, Zurlini me reconciliou com o cinema, mesmo que o filme dele, um pouco como Marnie, de Alfred Hitchcock, me dê a impressão de ser uma obra-prima doente, como dizia François Truffaut de certos grandes filmes imperfeitos. A Mostra vai chegando ao fim. Hoje à noite, votamos o prêmio da crítica, amanhã o júri internacional outorga o Troféu Bandeira Paulista. Tenho minhas preferências no prêmio da crítica. Jia, Jia, Jia, desde o começo achava que Um Toque de Pecado seria o maior filme desta Mostra, mas agora fiquei balançado e acho que vou votar no episódio de Victor Erice de Centro Histórico, que ainda tem sessão hoje. Um quarto de um filme – são quatro episódios – vale todos os demais 380 do evento, mas eu tenho de admitir que votaria, também, em Casadentro, de Joanna Lombardi, que me encantou. Espero que fique na repescagem, para dar chance a que mais gente o veja. Mais uma Mostra – menos uma Mostra, como diria Mário Peixoto. Desculpem-me, mas estou afetado/impactado pela visão do tempo de Zurlini, bem mais densa e sólida que a de Ming-liang no agônico Cães Errantes.

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