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Exercício do caos

Luiz Carlos Merten

09 de outubro de 2013 | 10h50

RIO – Escrevi no post anterior que a gente se arrepende do que não faz. Mas se arrependimento matasse eu teria morrido ontem. Queria ver o documentário de Cacá Diegues sobre a RioFilme e os 20 últimos anos do cinema brasileiro, o cinema da Retomada. Mas não aguentei e fui ver o Sacro Gra. Afinal, o documentário ganhara Veneza . O primeiro documentário a vencer o Leão de Ouro, o primeiro filme italiano a ganhar o prêmio em não sei quantos anos. Deveria ter ido ver o documentário de Cacá. Imagino que ele vá tomar porrada. O diretor ou presidente da RioFilme, nunca sei o cargo exato do Sá Leitão, é uma figura das mais polêmicas. Agora mesmo, está num bate-boca envolvendo curtametragistas, e a confusão começou pelo que ele postou no Twitter sobre o movimento dos professores. O Rio, por sinal, está dividido. Ninguém duvida da importância e legitimidade das reivindicações dos profs, mas se os black blocs são parasitários, e predadores, eu pelo menos não vejo um repúdio claro ao que fazem. Estamos a favor do caos, então? Queremos ver o circo pergar fogo? Agora vou ser eu a tomar porrada. Quase tomei da polícia, ao ficar no meio de uma manifestação, inalando gás. O que mais me impressiona é o ódio aos bancos, aos banqueiros e aos bancários. Tem muita gente protestando solitária na frente dos bancos, porque não pode descontar cheque, porque está sem dinheiro para amparar a família, para comer… É uma merda mopnumental. Cacá faz um documentário sobre a RioFilme, integra o conselho artístico da GloboFilmes. Nada disso é muito simpático para o cinema brasileiro que se pretende mais combativo, autoral (como se ele não fosse). Ainda não vi seu documedntário, mas já me chegou ao ouvido que é ‘chapa-branca’. De volta a Sacro Gra, a sessão começou caótica. Como ocorre com projeções digitais, houve sei lá que enguiço na leitura dos códigos de acesso e o filme não vinha. A sessão demorou quase uma hora para começar. Quando iniciou, queria morrer. Mas então é isso  – esses personagens, essa estrutura narrativa? O GRA é a sigla de Gran Raccordo Anulare, o rodoanel que circunda Roma. Os personagens são uma meia-dúzia – putas, claro, um cientista (entomólogo) que investiga insetos que estão destruindo a flora, um paramédico etc. Não consegui achar ninguém interessante e o relato não chega a estabelecer o vínculo entre eles e o GRA. A sensação é que estão no GRA como poderiam estar, sei lá, no Trastevere. Aly Muritiba estava na sessão e eu pensei cá com meus botões – se Bernardo Bertolucci, como presidente do júri, deu o Leão de Ouro para Sacro Gra, daria o que para A Gente, que é melhor e mais ousado, inclusive como ‘híbrido’ (de documentário e ficção), que Sacro Gra também não deixa de ser. Francamente…

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