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Lizzani

Luiz Carlos Merten

07 de outubro de 2013 | 10h24

RIO – As circunstâncias da morte foram estranhas e lembram a de Mario Monicelli, que se suicidou em 2010, aos 95 anos, lançando-se da sacada do apartamento. Carlo Lizzani também se suicidou? Aos 91, ele caiu ou se jogou do terceiro andar do prédio em que morava, no sábado. Integrante da resistência, depois militante comunista, Lizzani foi roteirista no auge do neo-realismo, por volta de 1950. Escreveu para diretores famosos – Aldo Vergano, Giuseppe De Santis, Alberto Lattuada e Roberto Rossellini. A par de crítico, foi teórico e historiador do movimento. Como diretor, fez filmes como O Corcunda de Roma, O Processo de Verona, o spaghetti western Requiescant e o policial Bandidos de Milão, acho que de 1968, e que me causou uma impressão profunda na época. Ouso dizer que Lizzani preparou o caminho para o cinema político de Damiano Damiano, por volta de 1970. Prosseguiu com Storie di Vita e Malavita, sobre a prostituição juvenil e que fez com atores não profissionais, e Fontamara. Esse último era uma adaptação do romance de Ignazio Silone que o próprio Luchino Visconti gostaria de ter filmado. Uma história de desejo e violência passada no Abruzzo, num vilarejo perdido do fim do mundo, cujos habitantes se rebelam – contra o atraso, a fome – e são duramente reprimidos. Michele Placido fazia o protagonista. Era bom? Como saber? Como boa parte da produção de LIzzani, tinha cenas fortes, mas foi mais um filme que sumiu. Lizzani nunca deixou de ser combativo e assumiu a direção do Festival de Veneza entre 1979 e 82, imprimindo sua marca e fazendo seleções de qualidade, nas quais reluzia a chamada estética ‘política’. Sempre ouvi muitas histórias sobre ele. Demagógico, corajoso, era certamente um homem de outra época. Peguedm o caso de Requiescaqnt, com Lou Castel, Mark Damon e Pier-Paolo Pasolini. Garoto sobrevive à chacina de sua família e vira dublê de pastor religioso e pistoleiro, dando a extrema-unção aos homens que caça para matar. Requiescant, descansa em paz e bangue-bangue. Eu, que adorava spaghetti westwern, achava o máximo. O que levou Lizzani ao suicídio? Solidão, depressão? Sei que numa trajetória longa e talvez irregular, ele fez filmes fortes, importantes. Todos os grandes de sua geração já se foram. Ele era o sobrevivente. Optou por sair de cena.

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