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Galáxia J.J.

Luiz Carlos Merten

28 de agosto de 2013 | 12h44

Minha ex, Doris Bittencort, havia trazido de Paris o número de julho/agosto de Cahiers du Cinéma, com a chamada de capa ‘O amor dos atores’. Não necessariamente ligada à capa, mas a melhor coisa da revista, há uma entrevista com Tatsuya Nakadai, por conta da homenagem que ele recebeu em Paris, no começo de junho. Nakadai fala da parceria com Masaki Kobayashi – e os dois fizeram a obra-prima, para mim, de todo o cinema japonês, Hara-kiri – e, claro, de sua associação com Akira Kurosawa. Não conhecia uma história que ele conta. Em 1954, Nakadai já fazia teatro, mas não cinema. Kurosawa precisava de um cara alto para fazer figuração em Os Sete Samurais. Nakadai tinha a estatura, mas nenhuma experiência de câmera. Ele devia simplesmente atravessar o plano, caminhando de um determinado jeito. Kurosawa fez com que repetisse a cena o dia inteiro. Nunca ficava satisfeito. A equipe inteira – e o astro Toshiro Mifune – esperava, Nakadai, intimamente, se perguntava porque Kurosawa não o mandava embora e sofria o que considera (hoje) a maior humilhação de sua vida. Kurosawa o estava testando, com certeza. Anos mais tarde, ele pediu a Kobayashi que liberasse Nakadai, em pleno intervalo da filmagem de Guerra e Humanidade, para fazer Yojimbo. E depois chamou o ator para ser protagonista de Kagemusha, substituindo o que havia escolhido, e que já não deixava de ser um substituto do ‘eterno’ Mifune. No livro The Emperor and the Wolf, sobre as carreiras – e a parceria – de Kurosawa e Mifune, Stuart Galbraith sugere que a ruptura ocorreu porque Kurosawa não teria tolerado a interpelação pública de Mifune, que discordava de uma cena que rodavam para O Barba Ruiva e o fez saber perante toda a equipe. Kurosawa concluiu o filme sem nunca mais ter dirigido a palavra para Mifune e o riscou de sua vida. Esses gênios eram fogo. Há uma história parecida de John Ford e John Wayne. O jovem Ford já havia remarcado Wayne, que ainda era Marion Morrison, mas demorava a chamá-lo. Wayne aceitou o convite de Raoul Walsh para fazer The Big Trail, A Longa Jornada, em 1930, e Ford deixou-o em banho-maria por toda a década, só fazendo dele o Ringo Kid de No Tempo das Diligências, em 1939. Ford, como Kurosawa, era o boss e exigia submissão. Conta a lenda que Wayne dirigia O Álamo e Ford foi visitá-lo no set. Sem a menor cerimônia, ele teria interrompido uma cena para dizer a Wayne e seu fotógrafo para dizer que estava tudo errado, que não não era assim, e deveria ser assado. É mole? Toda essa conversa é para dizer que comprei agora, na banca do Conjunto Nacional, na Av. Paulista, a Cahiers de junho, pós-Cannes. Por menos que reze pela cartilha da revista, tiro meu chapéu porque Cahiers, que ainda é uma referência para a cinefilia (e a crítica), não tem preconceito nenhum e dedica sua capa à… Galáxia J.J. Abrams, por conta do lançamento de Star Trek – Into Darkness. Só tendo neurônio de menos para ignorar essa galáxia e ficar empacado na ‘pureza’ de Tabu, do Miguel Gomes, do qual gosto bastante, mas gosto também, e até mais, de outras coisas, incluindo J.J. que, dentro da aventura, opera num registro do melodrama que me deixa louco. E Cahiers, no pós-Cannes, reavalia o maior festival do mundo para se perguntar o que resta dos ‘salauds’ do ano passado? Os Ryan Gosling, os Winding-Refn? A redação de Cahiers está siderada/dividida entre a Adèle de Abdellatif Kechiche e o Inconnu du Lac, o Desconhecido do Lago, de Alain Guiraudie. Quem traz o filme primeiro ao Brasil? O Festival do Rio ou a Mostra de São Paulo?  Não me canso de dizer para vocês que Guiraudie é o cara, mas, como o filme tem muita viadagem, quero ver como as plateias daqui – e os coleguinhas – vão reagir…

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