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Salve Wagner!

Luiz Carlos Merten

10 de agosto de 2013 | 18h05

GRAMADO – Wagner Moura ainda está dando uma coletiva aqui na Sociedade Recreio Gramadense, que funciona como centro do festival. Ele recebe daqui a algumas horas o Prêmio Cidade de Gramado, por sua carreira. Wagner odeia a palavra. Ele não separa arte e vida, é tudo muito orgânico e por isso lhe parece estranho falar na carreira. Wagner é um dos grandes atores do Brasil, não só de sua geração. Nunca disse para ele, mas o que me impressiona é como Wagner cresce na tela e cria personagens emblemáticos como o Capitão Nascimento de Tropa de Elite (1 e 2). Wagner diz coisas graves, sobre ética, estética e política, mas ele permanece um ‘garoto’, mais jovem do que é. Wagner declarou-se arrasado por precisar ser homenageado para vir a um festival – é sua primeira vez aqui – cuja importância reconhece. Wagner lembrou o texto que escreveu há pouco para o Globo, em que não vê contradição entre sucesso comercial e pensamento crítico. Ou seja, não existe necessariamente um divórcio entre o cinema que pensa (o Brasil e o mundo) e o que o público gosta de ver. Não se considera capacitado, do ponto de vista crítica, para avaliar os filmes nacionais de melhor bilheteria, mas considera ótimo esteja indo ver todos esses filmes falados em português. Elogiou Elysium, que  conseguiu ver, finalmente, há dois dias, em Los Angeles. Independentemente de ser um blockbuster, é um filme sobre a desigualdade social, e por isso, mais até que por ser fã de Tropa de Elite, ele acha que o sul-africano Neill Blomkamp o chamou para o papel. O diretor buscou atores de países – África do Sul, Brasil, México – em  que o problema é real. A desigualdade é a mãe dos problemas brasileiros, segundo Wagner, que apoiou as manifestações de rua que sacodem o País e criticou duramente o governo de Sergio Cabral,. no Rio. Ele acha absurdo que o governador tenha declarado ‘Vencemos a guerra!’, após o sucesso inicial da UPPs. As unidades pacificadoras foram um primeiro momento, muito importante, mas a ocupação deveria ter prosseguido com escolas, hospitais, tudo aquilo que ajudasse a melhorar a qualidade de vida nas favelas (e não é o que está ocorrendo. O caso seria de polícia, apenas.) Wagner é um raríssimo exemplo de inteligência crítica e ousadia. Disse uma coisa divertida – que passa raiva com jovens muito talentosos. Ele queria bater em Neill Blomkamp, em Gregório Duvivier, depois de assistir a uma peça dele. Wagner brincava, naturalmente. Queria bater em Kleber Mendonça Filho por seu excepcional O Som ao Redor. É um dos jovens diretores brasileiros com quem gostaria de trabalhar. Diria sim, imediatamente. Tudo o que quer é sair da sua zona de conforto. Mas, amanhã, ele deixa Gramado de madrugada. Voa para o Rio para passar o Dia dos Pais com os três filhos. Wagner Moura me comove. Tomando o exemplo do que diz, me faz passar raiva. Talento, honestidade, integridade, afeto. Eu, como velho, o invejo. Esse guri tem o mundo pela frente. E está usando seu tempo como gente grande. Priorizando o que acredito piamente que mereça ser priorizado.

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