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O maravilhoso é aqui

Luiz Carlos Merten

26 de julho de 2013 | 09h28

Fui ontem ao Rio para entrevistar Stephen Daldry e, de lambuja, conversei com Wagner Moura, que visitava a sede da O2 em Laranjeiras. Visitava não era bem o termo, e mais não posso falar. Wagner e Selton Mello coestrelam o novo filme, Trash, que Daldry começa a rodar na semana que vem. É um cara muito bacana, o Daldry, e eu amo O Leitor, aquele final do encontro de Lena Olin com Ralph Fiennes e o detalhe da latinha, que só um grande artista pode criar. O tempo perdido e reencontrado. Cada vez entendo mais por que Luchino Visconti e Joseph Losey quiseram tanto adaptar Em Busca do Tempo Perdido. A m… é que cada um inviabilizou o Proust do outro e nós perdemos, quem sabe, obras-primas que poderiam, muito bem, ter sido concretizadas,. até porque o foco das respectivas adaptações estava em diferentes volumes do romain-fleuve. A viagem ao Rio do um tanto tumultuada. Os aeroportos estavam fechados, sob a alegação de condições meteorológicas. Não duvido disso, mas, ao chegar no Rio – a Avianca conseguiu decolar -, ficamos uma hora no ar e dava parea ver os helicópteros que fariam a segurança do papa, que ia oficiar uma missa, na Lapa. Quando finalmente pudemos desembarcar, chovia, as cidade restava deserta – era feriado local – e os helicópteros no céu criavam um clima que me lembrou a rodagem da batalha de Smallville, em Plano, nos arredores de Chicago. Só faltava o Exército, mas depois até isso eu vi, porque fazia parte do efetivo de segurança. Tenho de admitir que estou ficando velho (mesmo). Queria muito ter visto Francisco, mas com chuva, com fome e com matérias para redigir antes da entrevista, preferi almoçar e seguir para a sucursal, que fica na Av. Rio Branco. A missa também já estava terminando e eu dificilmente conseguiria chegar perto, porque o trânsito estava congestionado e os acessos à Lapa tomados pela multidão. Terias de ter chegado bem mais cedo. Almocei na Cinelândia e, ao sair do restaurante, a missa, aí sim, havia terminado e toda a área foi tomada pelos grupos da jornada das juventude. Jovens falando espanhol com diferentes sotaques, inglês. Carregando bandeiras. Vocês me desculpem o que vou dizer, mas hoje em dia é mais fácil chamar gente para a parada gay do que para a marcha de Cristo (exceto se você for crente de carteirinha). A religião virou uma coisa brega, ou assim, parece, a muita gente. Na própria redação do Estado. ouvi coleguinhas fazendo piada, e é gente que se emociona com o Santo Forte, de Eduardo Coutinho. Brasileiro só tem orgulho do hino, e da bandeira, no futebol, mas ontem a garotada carregava bandeiras do Brasil, da Argentina, da Colômbia. Cantavam, hinos e, em plena Cinelândia, surgiu uma bola e rolou um futebol rápido (para complementar). Achei bonito pra caralho. Lembrei-me de  Luis Buñuel, que se definia como ateu, graças a Deus. De Pier-Paolo Pasolini, um marxista cristianizado. É verdade que, depois, não é que tenha me decepcionado, mas talvez tenha sido isso. Não se pode ter tudo. Francisco quer trazer os jovens para a discussão contemporânea. Diz que temos de ser responsáveis, que tudo nos diz respeito. O problema é que o discurso da Igreja é conservador e, no aeroporto, à espera do voo de volta, ouvi/vi na TV entrevistas com jovens que diziam coisas absurdas. A festa foi linda. E o que todos precisamos, a Igreja também, é alargar nossos horizontes para encarar os desafios do presente com o olhar no futuro, não com a referência da Inquisição. Por incrível que possa parecer, aquela babel me lembrou Terrence Malick, que dedica Amor Pleno a ‘the wonder’. O maravilhoso é aqui. Nós é que temos de construir nosso paraíso.

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