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Sertão das memórias

Luiz Carlos Merten

20 de julho de 2013 | 19h45

Nem sabia que havia um ciclo sobre cinema e cangaço na Sala Olido, mas terminei assistindo de novo, hoje à tarde, ao ‘meu’ Glauber,. que é O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro, Antônio das Mortes para o mundo. Não sou louco de não reconhecer a importância de Deus e o Diabo e Terra em Transe, mas não são filmes que possa definir como ‘favoritos’. Já o Dragão… Glauber ganhou o prêmio de direção em Cannes e acho que é seu filme mais bem dirigido. Como Deus e o Diabo e Terra em Transe, sua estrutura é bipolar, que o cineasta utiliza para desconstruir o relato tradicional. Mas, ao contrário dos dois blocos de Deus e o Diabo – o encontro do vaqueiro Manuel com o beato Sebastião no primeiro e com o cangaceiro Corisco no segundo -, O Dragão tem não apenas o conflito que falta ao outro filme (é o Dragão ‘contra’ o Santo) como sua estrutura maniqueísta e o pegar em armas o filia à tradição do chamado ‘nordestern’, o que tenho minhas dúvidas de que Deus e o Diabo também seja. Acho até que a ausência deliberada de um choque entre os dois blocos de Deus e o Diabo é que justifica a solução de Glauber. Como são aventuras ‘interiores’ de Manuel, com Sebastião e Corisco, a solução proposta pelo autor termina sendo a mítica busca da liberdade, e o encontro com o mar, ritmado pelo violão e pela voz de Sérgio Ricardo na trilha.  Lembro-me de que na pasta de Glauber, no arquivo do Estado, há uma entrevista feita com ele no lançamento do Dragão, acho que na Folha, e Glauber não apenas invoca os conceitos de nacional e popular, segundo Gramsci, como filia seu filme à tradição do western. A referência óbvia seria, e ele assume, o spaghetti western de Sergio Leone, mas tenho quase certeza de que Glauber cita também Howard Hawks, Rio Vermelho, e Anthony Mann. Tenho de ir amanhã à redação do Estado, para fazer um material para a edição de segunda, e espero pegar o arquivo aberto para conferir. Se Glauber cita mesmo Anthony Mann é porque gostava dele e, neste caso, deve ter visto A Queda do Império Romano. Aliás, independentemente de gostar do diretor, ele pode ter visto porque A Queda teve sua gala em Cannes no ano de Deus e o Diabo e, para mim, Terra em Transe nasce da cena final do épico de Anthony Mann,  quando o império é colocado à venda e Lucila, Sophia Loren, corre desvairada pelas ruas de Roma, conclamando o povo a reagir. Glauber, cria de Anthony Mann? Pelo menos no meu imaginário, sim. De volta a O Dragão, é um filme muito bem dirigido, e inventivo. Me encantam o diálogo cantado de Odete Lara e Othon Bastos e o duelo inicial dos cangaceiros, com o coro das rezadeiras. Gosto também da iconografia religiosa – a lança cravada no velho coronel, como São Jorge, salve ele, matando o dragão. E já que falo de Glauber, não resisto a comentar aqui a homenagem (mais que merecida) que o Festival de Cinema Latino-americano de São Paulo prestou a José Carlos Avellar, e o discurso de agradecimento que ele fez. Respeito demais o Avellar e me encanta a sua capacidade de criar alegorias e metáforas com as palavras, como outros (Glauber?) constroem, com as imagens. Avellar disse que escreve sobre cinema para prolongar o prazer que ver os filmes lhe proporciona. Eub acrescentaria – para compartilhar o prazer. E ele lembrou um personagem da sua infância, quando via muitos filmes nos cinemas de rua que então existiam em seu bairro. Havia esse sujeito, o louco do bairro, que após as sessões se sentava na calçada e recontava, do jeito dele, as histórias que tinha acabado de ver. E Avellar, citando aquele personagem anônimo de sua vida – talvez ele tivesse um nome, mas meu querido amigo não disse -, fez a ponte com (quem?) Glauber, com o Cristo negro interpretado por Antônio Pitanga, e aqui uma pausa. Eu sempre revejo Zózimo Bulbul, que já partiu, no papel. Não era ele? Mas, enfim, no Evangelho de Glauber, o Cristo dele diz que os loucos são bem-aventurados, porque herdarão a razão. O próprio Glauber, como visionário, talvez fosse um pouco louco – enlouquecido pelo seu desejo de criar, subverter, implodir estruturas e técnicas narrativas para, das ruínas, erguer o edifício do novo cinema. Lembrei-me dele naquele Godard, Vent de l’Est, apontando a encruzilhada do cinema, momento emblemático reinterpretado pelos irmãos Pretti e pelos primos Parente em Caminho para Ythaca. São tantas lembranças, e a Odete Lara, com aquele vestido roxo, é a coisa mais linda de ver.

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