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A Voz da Escuridão

Luiz Carlos Merten

19 de julho de 2013 | 09h38

Confesso que não sabia muita coisa – nada – do filme espanhol A Voz da Escuridão, em cartaz na Reserva, mas conversando outro dia com a Kenia, assessora da Imovision, elas me disse que era legal e me deu vontade de ver. Tudo bem, vocês vão dizer que era função dela vender o peixe da distribuidora, mas já tenho anos de estrada para saber quando o legal quer dizer bom. Fui ver, e o curioso é que, embora o filme já esteja em cartaz faz um certo tempo, encontrei meu colega Luiz Zanin Oricchio, que o viu na sessão anterior. Gostamos – ele saiu impactado e eu também, duas horas depois, porque o filme começa e termina muito forte, mas quanto mais eu penso em A Voz da Escuridão meu entusiasmo vai sendo relativizado. É verdade que, de cara, impliquei com o letreiro inicial, que diz que o filme é uma homenagem às mulheres espanholas que, após a Guerra Civil e a vitória do caudilho – por la gloria de Dios e y de la España -, Franco, choraram em silêncio seus mortos na porta dos cemitérios e das cadeias, e depois existem uns dez diálogos que reiteram tudo isso e aí o letreiro me deu a impressão de que o diretor Benito Zamprano, ou seu produtor, não devem ter uma ideia muito boa da nossa capacidade de discernir e ficam martelando nas nossa cabeça. O final também tem umas 30 dedicatórias e tudo isso confesso que me aborreceu, mas foi uma implicância boba. Zambrano, de 40 e poucos anos – nasceu em 1964 -, dirigiu Solas e Habana Blues, e certamente é um cara de talento, num sentido bastante tradicional. Conta uma história densa e apaixonante, e conta bem, a dos desmandos dos vitoriosos na Espanha, que caçaram os derrotados, os ‘comunistas’, numa nova e violentas Inquisição. Todo mundo está careca de saber que a Guerra Civil Espanhola foi um balão de ensaio para a 2.ª Guerra e que não apenas as ideologias de esquerda e direita nos campos de batalha se agudizaram depois, como armamentos (aviões, metralhadoras) foram testados ali. Sempre ouvi dizer que, até sua morte, o generalíssimo (Franco) governou com mão de ferro, aliado da Igreja e dos latifundiários, para impedir que a modernidade, o século 20, chegasse à Espanha. Quando ele morreu e o rei Juan Carlos foi entronizado, houve a redemocratização e o cinema de Pedro Almodóvar é fruto dessa fase, da chamada ‘movida’. Antes disso, Juan Antônio Bardem, Luis Berlanga e Carlos Saura fizeram o cinema da resistência, muitas vezes recorrendo a alegorias para colocar na trela o atraso franquista. O filme olha o que ocorreu no país do ângulo das mulheres presas numa cadeia feminina, à espera de julgamento ou do cumprimento das sentenças. Os julgamentos são sumárias e as sentenças, invariavelmente, de morte, sob acusações variadas -mas o crime era um só. Aos olhos da Igreja e do latifúndio, eram comunistas que queriam entregar a pátria a Moscou, uma acusação que não era só local, mas também era feita no Brasil, no começo dos anos 1960, aos apoiadores das reformas de base do presidente João Goulart. Zambrano conta com duas atrizes muito boas, Inma Cuesta e Maria León. Fazem duas irmãs, e a primeira está presa, prestes a dar à luz. A segunda é católica e a ligação das duas, o elo, representa a própria Espanha, em sua dualidade, de forma a ilustrar a frase da narradora – o bebê – de que a guerra fratricida nunca deveria ter ocorrido. Gostei de A Voz da Escuridão, e acho até que o filme pode ter sido feito como resposta a There Will Be Dragons, de Roland Joffe, com Rodrigo Santoro, que expressa um ponto de vista de direitas, a visão dos católicos (e do criador da Opus Dei). Só que Joffé não é um reacionário e o filme dele tem um ponto, uma questão ou crise de consciência, que eu acho que Zambrano também quer colocar na personagem de Inma Cuesta, que não se dobra em suas convicções nem para salvar sua vida, ou a da filha. Se ele tivesse mais clareza, em vez de ficar enchendo o filme de letreiros, o filme seria melhor. Porque, de alguma formas, a bela história vira um novelão, e o que interessa para ele são os sentimentos, mostrar que as mães comunistas também amam seus filhos e que os líderes da resistência são bons moços, apaixonados. Há uma tentativa de nuançar o horror. A carcereira, uma delas, é uma mulher íntegra e, na melhor cena, quando a madre autoritária tenta fazer as detentas beijarem o pé do Menino Jesus, a situação evolui para o confronto, a madre descontrola-se, mas até ela percebe que foi longe demais e, nas cenas seguintes, embora mantendo a dureza ela fica meio intimidada diante do olhar inquisidor de Hortensia, a irmã condenada à morte. Zambrano tem um ponto de vista, deixa claro de que lado está, mas o filme é melhor não na exposição do sofrimento gritado, mas no confronto silencioso – a dor da mãe burguesa, perante a agressividade dos filhos, na cena do jantar, e o pai reacionário que, pelo afeto, o laço de sangue, sente-se na obrigação de proteger o filho ‘comuna’. Não creio que A Voz Adormecidas seja um grande filme – perdeu para Branca de Neve, que é melhor, no Goya, o Oscar espanhol. Mas é bom ver o filme, e espero que vocês o façam – que o vejam – pelas questões éticas e estéticas que levanta.

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