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Altos e baixos

Luiz Carlos Merten

17 de julho de 2013 | 09h02

Como não se mexe em time que está ganhando, a produtora Barbara Broccoli já anunciou que Sam Mendes vai dirigir o próximo James Bond, repetindo com Daniel Craig a parceria tão bem sucedida de Skyfall. Digo bem sucedida sem acreditar completamente em minhas palavras, porque, se o filme arrebentou na bilheteria e ganhou o favor da crítica, implico justamente com que, para os outros, é seu maior valor – aquele vilão do Javier Bardem é consequência do Anton não sei das quantas de Onde os Fracos não Têm Vez, dos irmãos Coen, que eu ‘passo’, como se diz nas cartas. Não sei nem porque estou começando o post deste jeito, mas é que ele vai falar de bilheteria, de mercado. Perguntei ontem a um garoto, nem tão garoto assim, na sessão de Turbo – que adorei, diga-se de passagem – se ele sabia como tinha sido o embate entre O Homem de Aço e O Cavaleiro Solitário no fim de semana. Ele me olhou com cara de reprovação e me disse que não liga para essas coisas, só faltando acrescentar que crítico ‘sério’ anda, por princípio, divorciado do mercado. Hu-hu, sei. Mas vamos aos fatos – sem entrar nos números, que desconheço, Meu Malvado Favorito 2 continua no número 1, beneficiando-se das férias escolares e a verdade é que achei a animação muito, mas muito meia-boca. Em segundo ficou Man of Steel, em terceiro permanece, como impávido colosso, o Paulo Gustavo de Minha Mãe É Uma peça, e ele e a mãe são impagáveis, para só em quarto chegar o Johnny Depp de Lone Ranger. É curioso que, quando entrevistei o diretor Gore Verbinski – era one a one – perguntei se ele encarava a possibilidade de o filme fracassar na bilheteria e ele me respondeu que havia feito o filme que queria, o resto não lhe dizia respeito, era com Jerry (Bruckheimer). Nas junkets, sempre perguntam para a gente o que achamos dos filmes e eu coloquei que Lone Ranger tinha tudo (até demais), mas faltava alguma coisa nas mistura. Na verdade,. achei o filme muito crítico, em relação aos personagens e à ‘América’, para poder ser visto sem culpa por plateias consumidoras de pipoca e refrigerante. E o filme não satisfaz a expectativa de quem espera reencontrar o velho herói. A reação de Tonto, Johnny Depp, a Armie Hammer, o Cavaleiro, quando  ele tasca o ‘Hey-O, Silver’, é de reprovação, como a do coleguinha, ontem. O curioso é que na Positif de janeiro – que comprei de rodo em Paris, após Cannes, com outros números da revista -, há a reedição de um texto de Roberto Rossellini publicado originalmente em Paese Sera, em junho de 1977, logo após a premiação de Pai Patrão no Festival de Cannes. Rossellini foi o presidente do júri que ‘ousou’ premiar um filme produzido pela TV, a RAI. O texto faz um diagnóstico do cinema e o que Rossellini diz da parceria da mídia com a televisão está alicerçado em sua experiência pessoal, porque todo mundo está careca de saber que, a partir de A Tomada do Poder por Luís XIV, em 1966, o grande Roberto, desiludido com o cinema, que segundo ele se tornara ‘vão’, cavou sua trincheira na telinha. Virou ‘professor’ e só louco para achar que sua produção didática para TV tem o mesmo valor estético de certos experimentos dos anos 1940 e 50, no auge do neo-realismo e no pós (do movimento). Mas Rossellini acreditava na TV, como hoje esses diretores que migram para a HBO, porque Hollywood ‘morreu’. Não tenho muita paciência para séries, é um defeito meu, mas Rossellini diz coisas interessantes, sensatas, sobre o significado de premiar o filme dos irmãos Taviani, produzido fora dos grupos de poder que dominavam o cinema comercial (e Padre Padrone ainda era grande, imenso, independentemente do veículo para o qual foi produzido, como o Carlos de Olivier Assayas). Há uma frase dele no texto – ‘Hoje em dia, o problema que se coloca, em termos democráticos, é o da circulação’ – que parece profética e o tal democratismo, e a censura do mercado, somente se agudizaram com o alvorecer das novas tecnologias  que ‘acessibilizaram’ a produção (a palavra existe?) nos anos 2000. Houve anteontem a junket de O Concurso aqui em São Paulo. O filme entra na sexta parece que em 400 salas de todo o Brasil. O que anda ocorrendo com o mercado no Brasil? Alargou? Todos esses filmes – Meu Malvado 2, O Homem de Aço, Minha Mãe e Lone Ranger – têm entrado em 400 ou 500 salas. O último será defenestrado ou a Disney vai usar de pressão para manter o western de Gore Verbinski em cartaz, à espera (improvável) de que seja descoberto pelo público e ‘estoure’? Enquanto isso, alguns dos melhores filmes em cartaz estão num circuito de Jó – caso do deslumbrante Branca de Neve, de Pablo Berger. Em matéria de mercado sou esquizofrênico, reconheço. Defendo até a morte o Berger como defendo o Zach Snyder de O Homem de Aço (mas nãso creio que Branca de Neve tenha potencial para um grande circuito. É bom que permaneça ‘pequeno’, e desejado). Vou misturar alhos com bugalhos. Em matéria de spaghetti western, prefiro o Faroeste Caboclo de René Sampaio. Vou agora radicalizar, enfiando os pés pela mão – por mais que goste de O Som ao Redor, de Kleber Mendonça Filho, e o filme é tudo aquilo de bom que já dissemos, meu entusiasmo foi relativizado após o surgimento de Faroeste Caboclo, que é, muito mais, um filme de ‘mercado’, mas eu vou ao inferno para defender sua qualidade. A verdade é que cada filme tem seu formato de produção – os destaques do Festival Latino que o digam – e seu espaço no mercado. Meu coração não discrimina. Tem espaço para todo mundo.

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