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Vai valer a pena

Luiz Carlos Merten

16 de julho de 2013 | 09h34

Não, não é um verso da música (Começar de Novo, de Ivan Lins). Acordei tarde, para o meu padrão. Estava cansado. Para poder estar aqui ontem pela manhã, e assistir a O Concurso, tive de voltar de ônibus, diretamente de São João Del Rey. A apresentação de Os Gigantes da Montanha terminou quase dez da noite, não deu nem para jantar, mas valeu a pena, foi maravilhoso. Sói que, à noite, estava cansado, até porque no Caderno 2, além da reunião de pauta, teria uma capa, que caiu, e foi preciso improvisar outra. Digo improvisar mas não foi isso. Ocorre que havia visto e entrevistado Michel Ocelot há dois anos, em Berlim, por Contos da Noite, e o filme, que estreia sexta com exclusividade no CineSesc, passa hoje na TV paga, no Telecine Cult. Com isso, ou por isso, perdi o Chacal de Nahueltoro, que passou à noite no Festival de Cinema Latino-americano, no Cineclube Latino, no próprio Memorial.  Não sei se foi por isso que perdi. Tenho o DVD em casa, que a Doris, minha ex, me comprou acho que Santiago mesmo, e volta e meia estyou quase colocando o disco para rodar e paro. Já contei que Chacal é um dos filmes da minha vida. Vi-o ainda jovem, em 1972 ou 72, em Montevidéu. Havia ido ao Uruguai para ver A Laranja Mecânica, de Stanley Kubrick, que os militares proibiram no Brasil. Era uma sessão transnoche, e para fazer hora, era um período de muita contestação, fomos a uma exibição meio clandestina, nuima universiodade ou sindicato, nem lembro, do filme de Miguel Littín. A impressão foi tão forte que vi o Kubrick, depois, sem me ligar muito na odisseia de Alex, o personagem de Malcolm McDowell. Pensava o tempo todo em Nelson Villagro e no Chacal. As histórias até que são pasrecidas. Alex é um vândalo que passa pelo tratamento Ludovico e se regenera, e o ponto do filme é deixar o ser atrofiado em que se transformou para voltar a ser ele. No Chacal, o cara mata, é preso, educa-se na cadeia – era um iletrado -, e quando vira um outro homem a sentença é cumprida e ele é morto. Tive uma comoção tão grande, ética e estética, e política, que Alex, de todos os grandesx personagens de Kubrick, foi sempre o que menos me impressionou, ou tocou. Talvez tenha medo de rever o Chacal e descobrir que a emoção do jovem que era foi, afinal, exagerada. Prefiro permanecer assim. Hoje, no mesmo horário, o Cineclube reprisa Os Fuzis, de Ruy Guerra, um clássico do Cinema Novo e um dos filmes do autor que realmente amo. Mas esta terça também terá, às 21h30, no CineSesc, o Doce Amianto, de Guto Parente e Uirá dos Reis, que tanto me impressionou em Tiradentes, em janeiro. É uma representação excessiva, forte, do imaginário gay por meio de uma personagem transformista. Em Tiradentes, uma pessoa do júri, não importa quem, depois de ler o que havia escrito no blog me perguntou coimo eu tinha podido gostar. Estava implícito – o filme é tão bizarro, a personagem é tão… Lembrei-me de um  velho filme de Miguel Farias Jr, adaptado de Aguinaldo Silva. República dos Assassinos. Mariscot, o homem de ouro da polícia, o verdadeiro arauto do Diabo e da morte. E havia no filme Eloína, a travesti, uma memorável criação de Anselmo Vasconcelos. Só a Diaba, Milton Gonçalves, consegue ser tão boa – e o filme de Antônio Carlos Fontoura é melhor. Mas Eloína é uma figura. Vai prestar depoimento, e a autoridade ordena que se comporte, usa uma palavra que não me lembro qual é, mas exige que ela deixe de ser, digamos, uma aberração. Eloína retruca – ‘Mas eu sou uma aberração’, ou coisa que o valha e a câmera passeia por ela, revela quem e como é. O diferente, o estranho, o outro. É um pouco disso que Doce Amianto fala. O que mostra. Se alguém achar demais, a pessoa do júri, que procure algo mais palatável. Eu acho que vai valer a pena para vocês. Valeu, para mim.

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