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São tantas as emoções

Luiz Carlos Merten

01 de julho de 2013 | 07h54

Embora já tenha trabalhado no Esporte – em Zero Hora -, futebol não é minha praia. Sou Inter, interesso-me de saber os resultados, mas não muito mais que isso. Mas com a seleção é diferente. E eu só gosto de ver os jogões com a massa. Ontem, fui ver a final da Copa das Confederações no Anhangabaú. Estava chuviscando, frio naquele descampado. Estávamos nós – a molecada que baixa aos domingos da periferia, muitos sem-teto, putas e eu. Não era o que se poderia definir como audiência nobre, mas foi maravilhoso. No início até me preocupei, porque o jogo foi precedido de imagens de violência no Rio, quando manifestantes jogaram fogo na polícia. Quando o narrador anunciou que um dos policiais foi ferido, a massa urrou como se fosse uma vitória. Cheguei a pensar – isso vai dar merda, vou-me embora. Mas fiquei. E o Piquê, hein? Apagou-se! Nas raras vezes em que tocou na bola, o coro era sempre o mesmo – ‘Vai, Shakira!’ E ele foi. Já disse mil vezes que, para o bem e o mal, minha visão da realidade, e do mundo, é sempre midiatizada pelo cinema. O início da transmissão foi glorioso, pelo sentido do drama. A seleção avançando pelo túnel. Houve um momento de silêncio, ou assim me pareceu, precedendo o corte e a tomada de fora, quando a seleção assomou na boca do túnel e o Maracanã em peso explodiu. É verdade que nenhum filme me dá isso – nem Man of Steel -, mas também é verdade que não são muitos espectadores que veem a coisa como eu vejo. Lembrei-me do desfecho de El Cid, o mais belo épico do cinema. Num silêncio de morte, e em clima de grande tensão, Dona Ximena comanda o grupo que amarra o cadáver de Rodrigo, Charlton Heston, à sela do cavalo, para que ele, fantasmagoricamente, lidere a arrancada final. Na sequência, abrem-se as portas do castelo e a câmera, numa tomada de baixo, capta a imagem do cavalo que avança nervoso e para. Entra o órgão na trilha de Miklos Rosza, lancinante. Tive ontem um pouco a sensação quando a equipe adentrou no gramado. Não vai ser um óbito, mas uma consagração. O gol de Fred, a menos de dois minutos, confirmou isso. Fred foi guerreiro, Neymar deixou sua marca, mas David Luiz me levou à loucura. Nunca vi aquilo que ele fez. Talvez exista precedente, alguém vai me dizer que fulano, em sei lá que jogo… David Luiz deslizou e chutou a bola para cima, desfazendo o gol pronto. Ouso dizer que, se aquele gol tivesse sido feito, a Espanha talvez se rearticulasse. Se… Não houve ‘se’ nenhum. O Brasil jogou um bolão e ganhou. O Shakira dançou. A multidão se dispersou no Anhangabaú e muita gente, ali, nem comemorou. Voltou imediatamente à batalha da sobrevivência. Mas, durante o jogo, todos opinam, todos sabem o que Felipão tem de fazer. O democratismo do futebol. Saí dali e corri para o Espaço Itaú da Augusta para rever o Almodóvar. Os Amantes Passageiros! Pior que Kika, o pior Almodóvar, Mas o filme tem algumas ideias interessantes. A execução é o ó, como se Almodóvar, no sommet de sua arte, pensasse que só o diálogo mais chulo e a filmagem de qualquer jeito, sem elegância nem ritmo, pudessem dar conta da Espanha atual, com seus escândalos políticos e financeiros que não poupam o rei Juan Carlos. Ontem foi a noite de zoar a Espanha. Até Almodóvar! Mas vai ser por pouco tempo. Na sexta estreia Blancanieves, de Pablo Berger, e aí a história vai ser diferente.

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