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Pampa bárbara

Luiz Carlos Merten

04 de junho de 2013 | 09h05

Hugo Fregonese foi um diretor argentino que fez carreira em Hollywood, nos anos 1940 e 50, e deixou sua marca em westerns interessantes. Sua carreiora fecha um ciclo – ele começou na Argentina, com Pampa Barbara, no começo dos anos 1940, e assinou seu último filme em Hollywood, acho que em 1968., Chamava-se, ó coincidência – mas não era coincidência -, Savage Pampa. Fregonese foi casado com Faith Domergue e não é certamente um cineasta lembrado, um ‘autor’, embora a crítica francesa assinalasse seu gosto pela violência e pelo insólito. Por que estou lembrando Fregonese? Pampa Barbara reconstitui, como ação, a conquista do deserto empreendida pelo presidente Rocca. O reverso dessa epopeia foi o genocídio dos índios – a tal marcha da civilização sempre se deu ao preço do sacrifício de muitos. Vamos ao ponto. Comprei no aeroporto, em Paris, na volta para o Brasil, um exemplar de uma revista que não conhecia –  Sofilm. Na capa a foto de um cara bem conhecido e a chamada: Sur la Route avec (Na estrada comn) Viggo Mortensen. E mais – Tempestades, uísque e raposa morta. Só hoje me dignei a ver do que se tratava. Viggo Mortensen deve ter acabado de filmar, no cu do mundo, na pampa bárbara do sul da Argentina, um filme sem título que já virou meu objeto de desejo. O diretor é Lisandro Alonso, e o cinéfilo de carteirinha sabe de quem se trata. A história, situada no quadro da conquista do deserto, mostra como um certo Gunnar Dinesen, soldado dinamarquês, se engajou na cruzada dos conquistadores. Veio com a filha pequena, mas, de repente seus traços se perdem e ele desaparece no deserto, Alonso transforma a odisseia de Gunnar na antiepopeia. Ele esquece  seu nome, o que faz nessa terra selvagem. Segue em frente, alucinado. O próprio diretor anuncia que será, ou é, um filme experimental. para poucos. O roteiro tinha 20 páginas, sua proposta era filmá-lo em, 60 planos, nem um a mais. E Lisandro diz a frase que me encantou – “Viggo foi muito corajoso aceitando. Espero não destruir sua carreira.” Já fantasiei na minha cabeça. Quando ele veio ao Brasil com O Retorno do Rei, no fecho da trilogia O Senhor dos Anéis, eu o entrevistei e na verdade tomamos um chimarrão (os argentinos dizem um ‘mate’). Viggo criou-se na Argentina e agora paga tributo ao seu país de adoção. Não sei se vocês ficaram com vontade de ver esse filme que Lisandro Alonso diz que não vai se assemelhar a nenhum outro. Um óvni, um objeto não identificado? Fiquei nos meus cascos.

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