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Faulkner. By Franco

Luiz Carlos Merten

31 de maio de 2013 | 18h14

PARIS – Havia ficado pelo lado da Opéra e de Pigalle, onde fica a sede da Unifrance (Rue Henner). Foi lá que fiz minha última entrevista desta série, com Anne Fontaine, pelo filme Two Mothers, que ela adaptou de Doris Lessing, com roteiro de Christopher Hampton. Naomi Waters e Robin Wright fazem as duas amigas de infância que se encontram anos depois, umas viúva, a outra casada, e cada uma tem um tórrido affair com o filho da outra. Anne Fontaine, mulher do produtor Philippe Carcassone, ama esses amores inconformistas ou antiburgueses, embora, de forma bem atrevida, eu tenha lhe dito que a achava bem burguesa, e até lhe apliquei uma definição que ouvi outro dia ( de Clotilde Hesme) – ela é ‘bobo’, isto é, bougeoise et bohème’. Elaine Guerini diz que um dia vou apanhar, mas trato toda essa gente de ‘tu’, o que, segundo ela, que já viveu aqui, é o cúmulo da intimidade e que só se emprega em família ou entre quem dorme junto. Por volta da uma da tarde (daqui), oito da manhã no Brasil, estava livre e comecei minha maratona. Corri ao Quartier Latin, fui a Notre Dame (sempre) e emendei um filme no outro. Comecei com Somewhere in the Night, o segundo Joseph L.Mankiewicz, com um clima noir bem convincente, mas Deus do céu – não me lembrava do tal John Hodiak nem de Nancy Guild e os dois são horrorosos, gente de filme Z, do estúdio Republic, não sob contrato – com Darryl Zanuck! – na Fox dos anos 1940. Emendei com As I Lay Dying, de James Franco, que não havia visto em Cannes – Un Certain Regard. Não posso dizer que gostei, mas gostei de ter visto, e foi uma experiência e tanto. Hollywood sempre edulcorou o universo sulista de William Faulkner, mas eu confesso que amo Os Rebeldes, de Mark Rydell, com Steve McQueen. Aquela cena em que o garoto cavalga no lombo do cavalo e a voz que se ouve é a dele velho (Burgess Meredith), lembrando a experiência, é de uma beleza que me exalta. James Franco, vai na contramão. Filma a miséria humana, segundo Faulkner. A mãe morre e o pai, insistindo em enterrá-la num lugar distante, desintegra a família. Um filho enlouquece, outro perde a perna, o terceiro o cavalo, mas ninguém contesta de verdade o autoritarismo do pai, que o escritor transforma em retrato representativo do chamado Deep South. James Franco divide a tela em duas partes o tempo todo, mostrando a ação de ‘fora’ e de ‘dentro’, o que muitas vezes desconcerta, mas cria efeitos perturbadores. Fiz uma pausa e fui ver o Almodóvar, Amores Passageiros – sorry, mas não gostei -, emendando com Andrei Tarkovski, O Espelho, e não sei se estava no mood, ou se ter conhecido o filho dele na Mostra passada ajudou – o filme trata da relação pai/filho -, mas sei que entrei no clima e gostei. Finalmente! Agora cá estou no hotel, vou fazer a mala e amanhã cedo vou para o aeroporto. Meu voo será às 10 h da manhã (daqui), devendo chegar ao Brasil pelas 5 da tarde. Home! Lá vou eu…

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