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O Homem Que Ri

Luiz Carlos Merten

04 de maio de 2013 | 09h59

RIO- Volto hoje para São Paulo, acho que no fim da tarde, preciso checar. Gostaria de ficar umas horinhas a mais para checar a estreia de Rodrigo Fonseca como dramaturgo, com Encontros Impossíveis. Acabo de ler a matéria no Globo. A peça é sobre um jornalista que já foi importante, um crítico, e que no dia do aniversário faz o inventário de sua vida. Rodrigo arrisca-se. Admiro-o por isso. Além de externar muitas vezes ideias que são polêmicas – somos próximos no ‘suicídio’ de certas opiniões fora dos cânones da crítica que pensa padronizado, e no Recife deu para ver (muito) isso nos debates -, ele cria e num registro que me interessa. Jamais faria um filme, como Kleber Mendonça Filho, mesmo que fosse o admirável O Som ao Redor, que revi no Recife, no Cine São Luiz. Também não escreveria uma peça, como meu amigo Dib Carneiro – e o Mozart dele, ou melhor, o Salieri, que escreveu a pedido de Cláudio Fontana, é sua obra-prima, palavra de Gabriel Villela -, mas um romance (ou uma novela) até que me atrairiam.  Merda, Rodrigo. Fui ver ontem O Homem Que Ri no Festival Varilux. Havia conversado com o diretor Jean-Pierre Améris, que me disse que o livro de Victor Hugo era o filme que Gerard Depardieu queria fazer após Cyrano de Bergerac, mas naquele momento não deu, os anos passaram e agora, ao invés de Gwynplaine, ele faz Ursus, e o papel de pai que perde seus filhos talvez lhe permita exorcizar a morte do próprio filho, Guillaume, com quem tinha uma relação litigiosa. O Homem Que Ri foi uma das minhas leituras de juventude, meu primeiro Victor Hugo. E eu me lembro de ter amado e até me identificado com o garoto transformado em monstro, por meio de uma deformidade plantada (o riso perpétuo).Victor Hugo era atraído por essas figuras desmesuradas, fosse por monstruosidades  físicas ou de caráter. O corcunda de Notre Dame, o policial de Os Miseráveis, Gwynplaine, com seu riso trágico, esculpido cirurgicamente a mando de um rei despótico. Trata-se de um melodrama – ‘o’ melodrama -, com uma história simples e direta, um pouco como se fosse o Romeu e Julieta do autor, através de Gwynplaine e Déa, mas, como sempre, o entorno (e as digressões) criam a possibilidade de ‘n’ filmes. Um deles é o teatro, a vida como representação, a deformidade produzida e que vira uma ‘máscara’. Gwynplaine sempre me pareceu um herói expressionista, e por isso mesmo houve aquele filme com Conrad Veidt. Criado entre o povo, vira artista, mas é aristocrata e volta para os seus, só para descobrir que não pertence a esse mundo e que seu lugar é ao lado de Ursus e Déa. Quando retorna, é tarde demais e o desfecho, espiritualista, se faz segundo uma velha fórmula do melô – o céu unindo dois corações. Adoro a duquesa, prima do herói, que Emmanuelle Seigner faz no filme, quando ela diz que a deformidade que Gwynplaine tem no rosto ela tem na alma e ele tem uma frase dolorida,justamente sobre isso, quando descobre a impossibilidade de amar dessa mulher que representa a cruel indiferença da elite pela miséria alheia. Marc-André Grondin, que faz Gwynplaine, é um ator canadense, de Quebec. Fez o irmão jovem de C.R.A.Z.Y., aquele que sofre por não sair do armário, com medo de decepcionar sua família. Marc-André é bom, mas confesso que meu Gwynplaine ideal teria sido Vincent Perez, se ainda tivesse idade (e physique) para fazer o papel. Espero que o filme ainda ersteja no Varilux de São Paulo e que o post desperte a vontade de vocês de vê-lo. Mas sei que dificilmente será uma unanimidade. O recorte melodramático é radical, e há um preconceito muito forte contra o cinema de gênero, mais ainda contra o de lágrimas.

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