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Enfim!

Luiz Carlos Merten

29 de abril de 2013 | 09h59

RECIFE – Como disse no post anterior, havia visitado o set de Vendo ou Alugo, no Rio, num dia em que filmavam as quatro atrizes que representam diferentes gerações de uma família falida como a arruinada casa em que vivem. Sempre tive carinho pelo cinema de Betse de Paula, rico em humor e observações sociais, mas, como escrevi na matéria de hoje do Caderno 2, acho que os filmes dela se ressentiam da precariedade dos meios. A produtora Marisa Leão – poderosa – deu-lhe agora condições de fazer o filme mais elaborado de sua carreira. Uma comédia filmada em planos-sequências e na qual Betse reflete sobre o Brasil. Viraste pensadora, guria! – brinquei com ela. A mansão fica nos limites de uma favela que está sendo pacificada e o filme fala de tudo – violência, drogas, classe média, aborda até a questão evangélica. Há um pastor, interpretado por André Mattos em Vendo ou Alugo, como há outro, Thelmo Fernandes, em Giovanni Improtta. Essa figura é caricaturizada em cenas hilárias, e é curioso, à falta de uma definição melhor, que tanto Betse quanto José Wilker, ator e diretor de Giovanni Improtta, confrontem os evangélicos com a umbanda. Há uma questão evangélica no País, e meu colega Luiz Zanin Oricchio assinalou isso no debate e eu até lhe disse que esperasse pelo novo longa de Bruno Safadi, que passou no Festival do Rio e no qual  João Miguel interpreta ‘aquele’ pastor. Não sei se entro numa questão que pode ser delicada, mas já entrando – tem havido um desprezo da crítica pelas comédias que fazem sucesso no cinema brasileiro, como se não valessem nada. Bem, acabou – o desprezo, digo. Na véspera, Cacá Diegues, produtor de Giovanni Improtta, já havia alertado a crítica de que algo se passa no cinema do País e que ela (a crítica) não está percebendo. Não sei se lhe deram atenção, porque Cacá, afinal, como produtor, estava só defendendo seu peixe. Será? Mas ele disse, sensatamente, que são essas desprezadas comédias que estão revelando o País, como o faziam as chanchadas da Atlântida, também vilipendiadas nos anos 1950 e que hoje são redescobertas e valorizadas. Ontem, Zanin pediu para ler um trecho de um texto de Jean-Claude Bernardet e quem terminou lendo foi a produta Marisa Leão. Ele reconhece, enfim, as qualidades de De Pernas pro Ar 2. Diz que o filme não só faz rir como reflete questões importantes no Brasil de hoje e a menor delas não é a mulher no mercado de trabalho nem na cama, exercitando sua sexualidade. Bernardet chega a citar não me lembro que chanchada que também ficou – acho que Carnaval Atlântida, como poderia ter sido Carnaval no Fogo. Até brinquei com Marisa no fim do debate que agora a inteligensia vai poder rir sem culpa dos filmes de Roberto Santucci. Quem leu minhas trocentas matérias com ele no Caderno 2 está cansado de saber que o objetivo do cara nunca foi somente fazer rir, por rir. Escrever para o ator e criar personagens com base na realidade já estavam na pauta muito antes de Bernardet perceber. O post não é contra Jean-Claude, não mesmo. Cacá Diegues, na antiga revista Arquitetura, e Bernardet, na Última Hora, foram decisivos na minha formação. Insurjo-me é contra esse pensamento único, ou quase, que parece dominar a crítica. Todo mundo defende, na teoria, o outro. Mas, na prática, essa crítica, na qual não me incluo, tem ideias formadas sobre o que deve ser o cinema do País, e exclui o restante. Não aguento mais a cobrança por correção política – aliás, a comédia de Betse é politicamente incorretíssima. Aleluia, Senhor!

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