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A alma da gente

Luiz Carlos Merten

08 de abril de 2013 | 17h03

Cá estou eu, uma semana depois da minha cirurgia bucal. Vou poupá-los dos detalhes, mas comi o pão que o Diabo amassou, menos por dor do que por um mal-estar generalizado que se somou à repugnância provocada pela dieta de líquidos. Só o cheiro das vitaminas já me fazia vomitar. Imobilizado em casa nas primeiras 72 horas, não fazia outra coisa senão ver TV paga. Duas vezes Doutor Jivago (duas!), toda a série Missão Impossível e o JJ Abrams, Super-8. JJ! Vendo e revendo Tom Cruise como Ethan Hunt, e mesmo reconhecendo a importância de John Woo para a série – o jogo de máscaras -, o 3 me deixa nos cascos com a cena eletrizante do ataque de mísseis na ponte e o vilão interpretado por Philip Seymour Hoffman, que tem o fim que merece. Ainda curtia o MI-3 e, revendo Super-8, me emocionei demais com a história dos pais e filhos e com o garoto que identifica no monstro do espaço a carência da própria mãe. Embora colecione Cahiers du Cinéma, não sou muito leitor da revista, mas na capa dedicada a Super-8, li a entrevista com o diretor, quando JJ explica que, na imagem do monstro, fez imprimir, sobre seus olhos, os da foto da mãe e, quando o menino fala com o ET, abrindo seu coraçãso, na verdade fala com a mãe. Quantos espectadores percebem ou sabem disso? Não importa. O diretor sabe, eu sei, agora vocês sabem (talvez já soubessem). Tenho visto bastante coisa do Festival de Documentários. Tenho feito ótimas entrevistas – com Stig Bjorkman, Alan Berliner. (Fora do É Tudo Verdade, entrevistei há pouco Anne Consigny, sobre Alain Resnais. A emoção dela era genuína, falando sobre o grande artista.) Vi ontem, no Cine Livraria Cultura, A Alma das Coisas, de Helena Solberg e David Meyer. Os sonhos de jovens do complexo da Maré, no Rio, que participam de um projeto de dança de Ivaldo Bertazzo. O projeto termina, a vida volta ao seu curso. As meninas engravidam precocemente e desistem da dança. O menino vira motoqueiro e, no início da pacificação na Maré, chamado de marginal, é atingido à queima-roupa por alguma dessas autoridades que se achava no direito de tirar a vida dele (‘Só não morri porque não era minha hora’, ele diz singelamente.) Mas o mais doloroso é o garoto, Émerson, que, privado do sonho, não espera, entra para o movimento, o tráfico, e some no mundo – morto, esquartejado. É nestes momentos que percebo como, talvez, estou ficando velho. O cinema tem essa capacidade de me fazer sentir a dor como se fosse a minha vida. Havia conversado com Helena antes da sessão. No fim dela, estava agoniado. O cinema não é só uma experiência estética, política. É mais visceral. Quando me apanha, me derruba.

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