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Fuller, Olga, Andrea, mas cadê Tom?

Luiz Carlos Merten

31 de março de 2013 | 16h37

Queria tanto ter visto os westerns de Sam Fuller no encerramento do ciclo em homenagem ao grande diretor, no CCBB. Às 2 passou Renegando o Meu Sangue, Run of the Arrow, com Rod Steiger e Sara Montiel, mas quando foi reprisado nos cinemas o astro era Charles Breonson e nem me lembro mais o nome que deram ao filme para ressaltar a participação do cara com desejo de matar. Ontem também perdi Dragões da Violência, com, Barbara Stanwyck, mas consegui rever Quimono Escarlate. Amo Fuller e tenho meus preferidos entre os filmews que ele fez – O Beijo Amargo, O Beijo Amargo, O Beijo Amargo. Gosto também de O Anjo do Mal, Casa de Bambu, Mortos Que Caminham, que é seu maior filme de guerra (para mim, melhor que o autobiográfico Agonia e Glória) e Paixões Que Alucinam, mas quero dizer que, do que tive oportunidade de rever,  minhas descobertas no ciclo foram Cão Branco, que me parecia um Fuller menor, mas que me provocou uma epifania, e Quimono Escarlate, que me deixou chapado. Todo Fuller – racismo, o choque entre a cultura norte-americana e a asiática. Glenn Corbett e James Shigeta são parceiros na polícia de Los Angeles. Dividem o apartamento, no qual investiram as economias, foram G.I.s juntos na guerra (e sangue de Shigeta corre nas veias de Corbett, que salvou o amigo). São solteiros convictos – viadagem fora -, mas uma mulher, durante uma investigação, vai separá-los. O ódio que Shigeta interpreta coimo racista nos olhos ciumentos do amigo, ao saber que é correspondido por Victoria Shaw, é na verdade o racismo que Shigeta sente pelos orientais, como ele – algo que permanece ousado até hoje.  Na festa em Little Tokyo, ele olha os nipoamericanos como se fossem estranhos. O filme começa espetacularmente – o assassinato da stripper, que corre seminua pelas ruas de Los Angeles, até ser abatida. Fuller rodou a cena como se fosse real, sem isolamento da multidão. O efeito é forte. O mais curioso é que gostei de Quimono mesmo reconhecendo quie talverz seja o filme mais imperfeito do autor. Tem diálogos maravilhosos e outros constrangedores e até agora me pergunto como dois homens – um já seria demais – conseguem ficar tão loucos por uma figura tão inexpressiva quanto Victoria Shaw. Até Anna Lee, a amiga bêbada de Glenn Corbett, é mais expressiva que ela. O tempo todo pensava no que seria o filme com uma Constance Towers, que Fuller descobriu posteriormente.  Achei o happy end um dos mais tristes do mundo – James Shigeta fica com Victoria Shaw, Corbett aceita, fica contente pelo amigo, mas a parceria e a amizade acabaram. O amor é uma batalha da qual Corbett sai derrotado. Anos mais tarde, Fuller burilou a frase para Jean-Luc Godard, em Pierrot le Fou/O Demônio das Onze Horas, e comparou o cinema a um campo de batalha. Grande Fuller. Até quando é ruim, é ótimo. Estou em casa, postando. Fiquei até tarde na redação – tinha muitas matérias para o Caderno 2 de amanhã. Depois fui almoçar e agora faço hora para assistir à nova montagem de Monique Gardenberg no Sesc Pinheiros. Amanhã pela manhã, faço o que não deixa de ser umja cirurgia bucal. Vou ter de extrair cinco dentes (cinco!), todos na arcada inferior, para fazer implantes. Foram cinco dias sem dar notícias no blog, a partir de amaznhã talvez sejam mais um ou dois. Fui ao Rio na quarta-feira por conta do tapete vermelho de Tom Cruise.  Chuva e ar condicionado acabaram comigo. Achei impressionante o visual de Oblivion, mas o novo filme de Joseph Kozinsky, embora baseado numa graphic novel do diretor, é bem menos interessante que o anterior, Tron – O Legado.  A marca do autor está lá, e nos temas. Tron era sobre um filho que partia em busca do pai no universo virtual para o qual ele foi tragado. Em Oblivion. Cruise realiza um encontro improvável, consigo mesmo, clonado nesta Terra do futuro em que nada é o que parece ser. O herói pensa que está combatendo invasores extraterrestres, mas uma lavagem cerebral o faz cerrar fileiras justamente com os invasores. Existem muitos twits no relato e o filme, cada vez menos original, parece a súmula de vários outras ci-fis, até o desfecho, como direi? Vocês vão ver. Tom Cruise não dá mais entrevistas para print, nem press conference. Faz só tapete vermelho. Sentamo-nos, os indesejáveis da imprensa escrita, na plateia do Odeon para ver, ao vivo, as novidades do tapete, em cortesia da transmissão ao vivo pelo circuito interno de TV. Tom falou com TVs e internet. Deu a mesma entrevista umas 30 vezes. Embora não ouvíssemos o som, víamos os gestos e captávamos, por leitura labial, palavras-chaves que depois ele repetiu no palco do cinema. ‘Volcan’, ‘Hawai’. Que merda, Tom. Vai tomar vergonha – se não quer falar de divórcio nem cientologia, não fala. Diz que não, mas pelo menos discute decentemente o filme, mesmo se arriscando a ouvir o que não quer sobre ele. Para compensar o silêncio do astro, tivemos direito – alguns – a entrevistas individuais com Olga Kurylenco e Andrea Riseborough. Relembrei com a primeiora nosso encontro em Antofagasta,m no Chile, no observatório do Atacama em qwue foram rodadas cenas de Quantum of Solace. Olga é ucraniana e despejei sobre ela meu amor por Dovjenko, Terra, o mais belo poema revolucionário do cinema, e por Sergei Loznitsa. Serguei quem? Disse tudo de bom sobre ele, despertei sua curiosidade. Vou pirar se um dia descobrir que os caminhos deses dois se cruzaram. Com Andrea, meu assunto foi basicamente Madonna, W/E, em que elas fazia Wallis Simpson, e o novo Alejandro González-Iñárritu, que Andrea começa a filmar amanhã, em Nova York. Haveria tanta coisa para conversar com Tom Cruise. Deve ser muito chato se colocar numa redoma, virar um homem in the box – como a personagem de Andrea em Oblivion. Falamos sobre isso e ela disse coisas interessantes. O filme foi muito pensado. Só não é bom.

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