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Italianos!

Luiz Carlos Merten

02 de março de 2013 | 10h16

Não ando com sorte no meu retorno ao teatro. Achei muito legais os movimentos iniciais do que será a próxima montagem, de Gabriel Villela – O Gigante da Montanha, de Pirandello -, com o Grupo Galpão, mas queria ver Sonata Kreutzer e não havia lugar. Fui ver aquele espetáculo da Água do Grupo Armazém e foi o ó. Ontem, tentei o  Ensaio, com seu diálogo entre teatro e cinema e foi outro desperdício, mesmo que não de todo desagradável. Em matéria de casamento de teatro, nada supera César Deve Morrer, de Paolo e Vittorio Taviani., Aliás, foi graças a Francesca della Monica. que mais uma vez faz a preparação vocal do elenco, ajustando os atores e atrizes para cantar no novo espetáculo de meu amigo Gabriel, que tive acesso a Fabio Cavalli. O diretor da peça dentro de César Deve Morrer, dos Taviani, falou comigo pelo telefone, na quinta-feira, e a matéria estará na edição de amanhã do Caderno 2. Vejam como são as coisas – Cavalli é o diretor da companhia estabelecida no presídio de segurança máxima de Rebibia. É amigo de Francesca e, conversando com ele, descobri que acima dele, como diretora artística do projeto Arte no Cárcere,. está a dramaturga Laura Andreini, autora de La Festa Scritta, e que Laura também é viúva de Enrico Maria Salerno. Conoce?, perguntou Cavalli. Como não. Enrico Maria Salerno interpretou muitos filmes, mas dois são meus favoritos – um é um grande filme de Dino Risi, L’Ombrellone, Férias à Italiana, de 1965, e outro, embora não seja tão grande possui um encanto espécial para mim. Enquanto Durou o Nosso Amor, Le Stagioni di Nostro Amore, de Florestano Vancini, no ano seguinte. Tenho um carinho por Vancini que passa olimpicamente sobre tudo de ruim que ele possa ter feito por causa  de La Lunga Notte del 43, A Noite do Massacre,. I Fatti di Bronte e, justamente, Le Stagioni, sobre um Ulisses contemporâneo, que não é mais o heroi épico – como o Michel Piccoli de O Desprezo, de Jean-Luc Godard – e que, numa cena particularmente lograda, encontra na praia a sua Nausicaa, e ela é Catherine Spaak. A jovem Catherine! Magnífica, mas o curioso é que hoje, quando penso nela, e em seus grandes filmes (Aquele Que Sabe Viver/Il Sorpasso, de Dino Risi; Amantes e Adolescentes/I Dolci Inganni, de Alberto Lattuada), sua imagem meio que se mistura com a de Anne Hathaway. Elas têm algo em comum, e não é só a silhueta. É também o temperamento, a delicadeza. Tergiverso. Salerno, como diretor, fez Anônimo Veneziano, que deu a Florinda Bolkan todos os prêmios de interpretação do cinema italiano em 1972 e fez grande sucesso em todo o mundo. Também – com Veneza no inverno e aquela trilha, como resistir? Gostei de conversar com Cavalli e ele me contou como foi salvo pelos presos de Rebibia. Assassinos da Máfia, da Camorra, do narcotráfico – os Taviani lhe pediram que encenasse Júlio César para o filme, porque, na péça de Shaklespeare, os conspiradores sde definem como ‘homens de bem’, como os crimninosos na cadeia. Cavalli estava cansado do teatro burguês e esses homens, transformados pela arte, lhe abriram uma outra via, lhe deram uma nova compreensão da capacidade que o teatro – a poesia, a beleza – tem de atuar nas consciências, de mudar os homens e o mundo. Isso pode ter uma dose de romantismo, as se não acreditar nessa viagem, vou acreditar em quê? Estou impregnado de cinema iotaliano, neste momento, e não só pelo novo filme dos Taviani, ou pela entrevista com Cavalli, com o que ele me trouxe (e fez recordar). Cheguei na redação do Estado – após Santo Domingo, Tiradentes, Paris, Berlim – e me esperavam pacotes de DVD da Versátil, da Cult Filmes (e também da Sony, Warner, Paramount). Muitos filmes, e sobre alguns quero falar especificamente depois (um de Howard Hawks, outro de Samuel Fuller), mas numerosos eram resgates de clássicos, ou pelo menos cults, italianos. Polícia e Ladrão, Guardie e Ladri, de Steno e Mario Monicelli, com a dupla clássica Aldo Fabrizi e Totò; Peccato Che Sia Una Canaglia, de Alessandro Blasetti, com a jovem Sophia Loren (e Marcello Mastroianni);  O Juízo Universal, que ninguém é louco de achar que  é um grande De Sica, mas resgata Nápoles e seu humor popular num clima de fim de mundo, com elenco excepcional (Vittorio Gassman, Nino Manfredi, Silvana Mangano, Fernandel, Melina Mercouri etc); e Esposamente, de Marco Vicario, que virou talvez o filme preferiodo das feministas em 1978, com Laura Antonelli como a esposa submissa (de Mastrpoianni), que acha que o marido morreu e inicia uma trajetória de liberação sexual a que ele próprio assiste de longe. Luchino Visconti e Mauro Bolognini não conseguiriam reconstituir de forma mais exata o começo do século passado no norte da Itália – grandíssimo filme, e eu já amo o Vicario de Horas Nuas, com Rossana Podestà, que tive o privilégio de rever numa recente homenagem da Cinemateca a Lygia Fagundes Telles (é um dos cult movies da grande autora). Tanta coisa para falar, comentar. Espero que o post tenha deixado meus amigos cinéfilos com vontade de compartilhar todas essas lembranças (e filmes).

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