As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

80% é selvageria

Luiz Carlos Merten

25 de abril de 2019 | 22h15

Não estou querendo fazer inimigos – não mais que os que já tenho. Mas meu colega Guilherme Sobota, ao ver que gostei de Vingadores – Ultimato, me mostrou a contra de ontem da concorrência, com a crítica ao filme dos irmãos Russo. O filme mais chato do ano. Ruim, não – péssimo. Não concordo, absolutamente, e talvez tenha sido por isso – estou pensando agora – que fiz o post anterior. Pois eu também estou me sentindo dual. Entrevistei ontem a produtora Marisa Leão, a quem admiro imensamente, para a capa de hoje do Caderno, sobre os desdobramentos da regulamentação da Lei Rouanet. Marisa enfatizou que o audiovisual usa outros mecanismos de patrocínio – Fundo Setorial e as leis de incentivo -, mas sua preocupação é grande, e legítima, porque a cultura está sendo aviltada, e de uma forma como nunca viu, nem eu, na história desse País. Para ela, o ministro Osmar Terra, do Turismo, dizer que a regulamentação é para ‘acabar com a farra’ beira o desrespeito. “Que farra que ele está falando? Acho que se trata de uma interpretação equivocada do papel da cultura. Ele que visite os nossos sets e só encontrará trabalhadores. É um setor da economia que emprega, dá retorno e, muito importante, tem a ver com auto-estima e preservação e afirmação da identidade nacional. Todo país civilizado preza a sua cultura, veja a Europa, os EUA, a Ásia. Somente o Brasil permite que 80% do mercado sejam ocupados por um só filme estrangeiro, como vai ocorrer a partir dessa quinta-feira, 25, com Vingadores – Ultimato. Não dá nem para falar em defesa, em reserva de mercado. Qual é a chance de um filme brasileiro, o melhor que seja, contra esse rolo compressor?” Falei acima que me sinto dual por isso. Compartilho a indignação de Marisa por essa ocupação maciça do mercado, mas, como espectador e crítico, quero ter o direito de ver e defender Ultimato de desatinos. Joe e Anthony Russo são artistas. Não deve ter sido fácil para eles impor sua visão autoral para o que deveria ser o desfecho da saga. Ou melhor, não foi. É sabido que foram afastados da direção, e readmitidos, muito provavelmente porque o estúdio não conseguiu mais ninguém para levar o após-calipso com pulso firme (e coerência). Defendo Avengers – Endgame, só não dá para defender os 80% de ocupação do mercado, que são selvageria.

Tendências: