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Só os anjos têm asas

Luiz Carlos Merten

05 de dezembro de 2012 | 23h34

Na França, onde surgiu, se consolidou e desenvolveu a politique des auteurs, houve uma época, por volta de 1960, em que todo dilema se resumia numa questão. Que Eisenstein, que nada. A escadaria de Odessa como os sete minutos mais influentes da história do cinema, quem se importava com isso? Nem Jean Luc Godard nem François Truffautr, muito menos Eric Rohmer rezavazm pela cartilha de Eric Hobsbaum. A verdadeira questão era ser hawks-hitchcockien, ou pas? Estou com um post entalado sobre Alfred Hitchcock, pegando carona no lançamento do pacote em blu-ray de 14 das assim condsideradas obras-primas do mestre do suspense, mais os filmes que acabam de estrear nos EUA, na TV e no cinema, sobre a realização de ‘Psicose’ (“Hitchcock’) e a obsessiva relazção do cineasta com Tippi Hedren (‘The Girl’). Mas o Mauro Brider me pede que fale de Howard Hawks e lá vou eu. Como me informou num comentário no blog, Mauro diz que sempre preferiu John Ford, mas aí viu, ou reviu, ‘Paraíso Infernal’, Only Angels Have Wings, de 1939, e sua balança começou a inclinar para Hawks. Tenho a maior admiração por Hawks, um raro diretor que frequentou todos os gêneros de Hollywood – comédias, westerns, aventuras, filmes noir, épicos, acho que ele só não incursionou pelo melodrama – e nunca houve a menor discussão quanto à sua ‘autoria’. A primeirta coisa que Bertrand Tavernier e Jean-Pierre Coursodon dizem no seu ’50 Anos de Cinema Americano’ é que o primeiro e o último filme de Hawks se assemelham tanto que não há dúvida possível quanto à personalidade e os interesses de quem os fez. Nem me passa pela cabeça discutir a afirmação, mas, por mais que admire Hawks e Hitccock, a ponto de haver escrito um livro (‘Cinema, Realidade e Artifício’), cuja tese central é a importância – superior à da escadaria de Odessa – do assassinato de Marion Crane na ducha de ‘Psicose’, não hesitaria muito em dizer que meu preferido é John Ford. Feita a afirmação, quero dizer que gosto muito de alguns filmes de Hawks – os westerns, ‘Hatari!’ e justamente ‘Paraíso Infernal’. O filme sobre aviação de Hawks cria um microcosmos em que, na verdade, o que está em discussão é um padrão de homem e suas variações – Cary Grant encarna um modelo como o John Wayne de ‘Rio Vermelho’, ‘Onde Começa o Inferno’, Hatari!’, ”Eldorado’ e ‘Rio Lobo’ (e todos os demais personagens gravitam em torno deles). No mesmo ano em que Hawks morreu – em 1977 -, surgiu em ‘Film Comment’ um artigo assinado por Raymond Durgnat e intitulado ‘Hawks is not good enough’. Hawks não é tão bom – a reavaliação provocou fortes reações nos arraiais dos admiradores. A frase, cuidadosamente escolhida, vem justo de ‘Paraíso Infernal’, quando um personagem afirma que um piloto não é tão bom, ou suficientemente bom, para integrar o grupo. Gosto demais de Hawks, e de ‘Only Angels’ e até fui um defensor ardoroso de ‘Always’, Além da Eternbidade, de 1939, convencido de que Steven Spielberg, em seu remake de ‘Dois no Céu’, A Guy Named Joe, de Victor Fleming, de 1944, não fizeras outra coisa senão transformar sua base numa sucursal da de ‘Paraíso Infernal’.  Sempre amei em Hawks a defesa do porofissionalismo como humanismo, a rejeição da morte – no cinema do aurtor, as pessoas não morrem, mas saem de campo – e a ausência, até onde me lembro, de flash-back. Não há um sequer na obra de Hawks. Ela é toda uma construção do presente do homem, o que somado à sua célebre afirmação sobre a câmera colocada à altura do olhar, sempre fez dele um  autor especial. Não sei se respondi à pergunta, ou se correspondi à expectativa do Mauro. Resumindo – prefiro Ford, mas a minha cinemateca ideal reserva um nicho para Hawks. Nele, estão ‘Onde Começa o Inferno’, ‘Hatari!’, com o passo do elefantinho e… ‘Paraíso Infernal’! Se só os anjos têm asas, só eles podem voar como os pássaros, não os homens. Toda a miséria e grandeza de ‘Paraíso Infernal’ vem  da constatação de que os homens vivem testando seus limites.

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