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A Lulu de Bob Wilson

Luiz Carlos Merten

18 de novembro de 2012 | 11h40

Na sexta, entrevistei a Lulu de Bob Wilson – sem ter visto a montagem da peça de Wedekind em cartaz no Sesc Pinheiros, o que devo fazer somente hoje. Angela Winkler é tímida, não queria dar entrevista, mas foi arrastada pela assessoria ao Café Santo Grão, onde nos encontramos. No final da conversa, ela estava relaxada, descontraída. Angela quem? Os cinéfilos sabem. Não poderia perder a oportunidade de entrevistar a atriz que virou sinônimo de cinema político, nos anos 1970/80, por seus papeis em filmes de Volker Schlondorff e Andrzej Wajda. ‘A Honra Perdida de Uma Mulher’ (codireção de Margarethe Von Trotta), ‘O Tambor’ e ‘Danton’. Mais recentemente, ela fez ‘Triângulo Amoroso’, de Tom Tykwer. Tudo bem – Claudia Cardinale, que entrevistei na Mostra, tinha mais história, mas Angela me contou coisas muito interessantes sobre o clima da época, quando a polícia invadiu e depredou sua casa. Na caçada aos terroristas do grupo Baader Meinhoff valia tudo – e ela, por seu papel como Katharina Blum, no filme em que Schlondorff e Von Trotta denunciavam o terrorismo de Estado (e da mídia), havia virado suspeita ou, pelo menos, ‘indesejável’. Mais teatro – fui ver ontem ‘O Olho Azul da Falecida’, com texto de Joe Orton. Achei divertida a primeira frase do diretor Luiz Henrique, no texto de apresentação, no programa. A Inglaterra é um país tão conservador que, desde a estreia do texto de Orton, em 1965, até hoje, nem a rainha mudou. He-he. O texto ficou tão palatável? Ou foi a montagem que reduziu o ímpeto furioso de Orton? Lamentei com meus botões que Genésio de Barros e o Marco Pigossi não tenham preferido adaptar ‘O Amor não Tem Sexo’, Prick Up Your Ears, de Stephen Frears, filme de 1986 que conta a história do assassinato de Joe Orton por seu amante perturbado, em 1967. Nos anos 1980, Frears fez todos aqueles filmes investigando o sexo, e a homossexualidade, na Inglaterra, nos duros anos de Thatcher. Cheguei a achar que ele próprio fosse homossexual e certa vez, numa entrevista, lhe perguntei. Ele achou graça, mas explicou que a legislação inglesa foi muito dura – até os anos 1960 – com os gays e que depois disso, apesar do respaldo legal, o preconceito seguiu muito forte. Seus gays, mesmo quando pertenciam à classe artística, sempre mais libertária, vinham do meio de trabalhadores, ou eram imigrantes (como em ‘Minha Adorável Lavanderia’). Gary Oldman e Alfred Molina eram tão bons e ‘O Amor não Tem sexo’ ainda tinha Vanessa Redgrave, lembram-se? ‘O Olho Azul’ é sobre uma dupla que assalta banco e esconde o dinheiro no caixão da mãe de um dos assaltantes. Entram o policial que investiga o caso, o viúvo e a enfermeira que ficou com a fortuna da falecida. Muitos quiprocós e a montagem poderia ser divertida, se fosse mais ágil e houvesse um verdadeiro mecanismo de humor. Como se consegue isso, não sei. Só sei reconhecer quando vejo, e não vi. Só para fechar o título – Angela Winkler surpreendeu-se quando lhe falei na Lulu de Nadja Tiller, dirigida por Rolf Thiele, em 1961. Mais de uma vez ela perguntou – ‘Mas a Nadja Tiller fez Lulu?’ Fez, e bem. Walter Hugo Khouri apropriou-se da Lulu de Wedekind em ‘As Feras’, que foi seu último filme a estrear no cinemas (embora feito antes de ‘Paixão Perdida’). Muito conversamos sobre a Lulu de Thiele, que virou cult para Khouri e Rubem Biáfora, em São Paulo, por seu expressionismo que nada tinha a ver com o espírito nouvelle vague predominante na época.

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