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‘7 contra Tebas’

Luiz Carlos Merten

25 de agosto de 2012 | 11h32

Já contei mil vezes como ‘História da Literatura Ocidental’, de Otto Maria Carpeaux, é um dos meus livros preferidos. Na época em que a coleção inteira havia sido editada em oito volumes, eu tinha cinco. Agora, na reedição, a tenho completa, em três, mas ainda não me desvencilhei dos livros velhos. De vez em quando, abro e leio, ao azar, não importa sobre qual período ou autor. Carpeaux não era só um erudito. Tinha estilo. Escrevia como um verdadeiro ‘autor’. Carpeaux – é preciso a autoridade dele para isso – considera ‘7 contra Tebas’ a peça mais trágica do teatro grego. Explica que Ésquilo é o poeta de uma época em que religião e política, Estado e família se confundem, porque os elementos dessa equação ainda tem feição arcaica. O Estado, em Ésquilo, é federação de famílias da mesma raça, ligadas pelo culto aos mesmos deuses. Elas governam a Polis de forma aristocrática, mas a cidade de Atenas está se democratizando. Com as novas classes, modificam-se os conceitos de culto e de direito. As leis primitivas da família e do clã chocam-se com a consciencia humana. Etéocles e Polinice acreditam-se envolvidos na luta das tribos, quando na verdade servem de instrumentos à guerra santa contra a lei antiga e bárbara da raça. Antígona desafia até os deuses pelo direito de enterrar o irmão. Por que estou escrevendo isso? Porque ontem assisti a um pequeno milagre. Tenho acompanhado a releitura de Ésquilo pelo Clube Noir, espero estar acertando o nome do diretor, Roberto Alvim. O partido radical me desconcertou em ‘As Suplicantes’, em ‘Os Persas’ já estava dentro, mas ontem, com ‘7 contra Tebas’, que termina amanhã, foi a verdadeira vertigem. Onde andam os críticos de teatro, que não tecem loas a ‘7 contra Tebas’? Devem ter-se perdido no Bom Retiro, os pobres. Amei a montagem, em que o diretor, a exemplo de meu amigo Gabriel Villela, busca a síntese, e isso numa época em que ser prolixo virou mérito (será que é como reação ao ‘mercado’?). Na sequência de ‘7 contra Tebas’, o Clube Noir’ monta ‘Prometeu’ e a ‘Oréstia’, Orestreia 1 e 2, que Carpeaux, sempre ele, considera a maior tragédia política de todos os tempos. No final dessa nova trilogia, o grupo pretende remontar corridas, em duas noites, todas as peças. Palco austero, uma fonte de luz, atores vestidos de preto e recortados como silhuetas no palco sem cenografia nem adereços. Movimentos lentos. A voz humana. Enxutos 40 minutos de encantamento em cada montagem. Amei.

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