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365 DNI, a fragilidade do macho alfa? (2)

Luiz Carlos Merten

07 de julho de 2020 | 11h16

Não são necessários mais que dois meses para que Laura/Anna-Maria Sieclucka se renda aos encantos de Massimo/Michele Morrone. Afinal, como ela diz a uma amiga – o cara tem um corpo esculpido por Deus e o falo que é coisa do Diabo. Relacionamento abusivo? Sem dúvida. Li num dos críticos revoltados com o machismo da diretora Barbara Bialowas que o filme nem tem tanto sexo porque a bela e seu mafioso passam boa parte do tempo fazendo compras. Consumindo. Acho que o colega não entendeu, porque o sexo me pareceu, sim, bem forte e pelo menos na cena de sexo oral no avião dá para ver, de viés, que tem alguma coisa na boca, ops, da moça. Não fazia a menor ideia de quem era o tal Michele. Fui pesquisar e descobri que o macho alfa é um fenômeno. Ator, cantor, dançarino, jogador de futebol, modelo, pintor e sei lá que mais. Na ficção, ele é poderoso, riquíssimo, com dinheiro para comprar tudo o que a amada deseja e mais um pouco. E, na realidade, se o filme se propõe como fantasia erótica é sobre o poder do dinheiro. Não é esse o mundo pós-capitalista em que vivemos? A liberdade é uma calça azul e desbotada, já dizia aquela velha propaganda. Uma calça de grife – a liberdade que existe é de consumir, mas custa caro. É para poucos. (A concentração de renda é uma tragédia contemporânea, exceto para quem está no topo da pirâmide social.) Fora isso, a ética virou um artigo de luxo na era do vale-tudo das fake news. O ‘herói’, por sinal, tem sua ética. Pode ser brutal com as mulheres – pede que Laura lhe ensine a ser delicado –, mas não aceita o abuso infantil. (Faz parte da mística do pater famílias, da mesma forma que Vito Corleone não aceitava as drogas, lembram?) Toda a fábula não é tanto sobre a mulher – ela foi comprada com bens de consumo? Pela gostosice do cara? -, mas sobre a feminilização do macho. Porque tudo o que ele espera é a declaração de amor dela. Pede-lhe até que repita. E, no fim, depois do que ocorre no túnel, e podemos apenas intuir, ele cai por terra, como um homem apaixonado, derrotado, reduzido à condição de joelhos, como fez com tantas mulheres. Vejam, não estou defendendo o filme. Só acho que tem ali dentro alguma coisa interessante, que escapa ao manual do politicamente correto. Ao longo da história, as mulheres têm sido oprimidas. Sem dúvida, mas existem casos de mulheres que, usando as armas dos homens – e aliadas à prática da sedução -, foram verdadeiras pragas. Foram? Estamos vendo mulheres a serviço do projeto autoritário de poder no Brasil, de blogueiras a procuradoras da República. Vi ontem um programa de entrevistas na TV em que a apresentadora, sob a falácia jornalística de ouvir o outro lado, era bem tendenciosa. Como não sabia nada desse tal 365 DNI fui pesquisar e espero ter olhado em fontes confiáveis. Tem livro no meio e vai virar, ou já é, série. Num próximo episódio, Laura sai do túnel – não morreu! -, tem o filho e é sequestrada por um chefão rival de Massimo e adivinhem. Ela tem um caso com ele! Não resiste a um cativeiro! É Síndrome demais de Estocolmo. Brinco, mas é horrível, e aí já virou safadeza completa. Quando fui procurar pelo Michele Morrone, vi que o cara, que me era desconhecido até o domingo, tem milhões de seguidores e uma tal foto dele, saindo com não sei quem, viralizou nas redes. O que acho é que esses ‘fenômenos’ não podem ser analisados com moralismo, mas à luz da cultura globalizante, com o que ela tem de decadente e vulgar. Mais Slavoj Zizek e menos indignação, por favor. Para fechar, volto ao Almodóvar. Em 1990, as feministas caíram matando sobre Áta-me. Pedro foi chamado de machista. Depois ele fez todos aqueles filmes sobre novas questões de família e diversidade de gêneros. Sempre tive para mim que, independentemente de qualquer outra abordagem, Áta-me levou Pedro a A Pele Que Habito, e só isso já faz dele um filme necessário, importante, na (r)evolução do autor.

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