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2013 pintando no pedaço

Luiz Carlos Merten

31 de dezembro de 2012 | 18h46

Depois de passar mal no sábado à noite, no Frei Caneca, e voltar para casa sem ter revisto ‘No’, assisti ontem ao filme de Pablo Larraín no Itaú da Augusta. Eta cinema que ficou horrível. Falo da sala 1. A retirada dos sanitários internos nas laterais aumentou o número de poltronas, mas o lugar onde estava não poderia ser mais enviesado. De qualquer maneira, não creio que isso tenha influenciado na minha revisão de ‘No’. Gostei menos do que a primeira vez que o vi, na Quinzena dos Realizadores, em Cannes. É um filme bem feito, uma história bem contada, mas estou tentando até agora entender o que Larraín quis dizer com seu filme. Não creio que as pessoas ao redor tenham decifrado o enigma. Dei-me ao trabalho de ler duas ou três críticas. Só obviedades. O que significa exatamente essa história em que a ideologia vira uma questão de marketing? Até aí, entendo – uma crítica à globalização, ao consumismo que domina o mundo moderno. Aquele sujeito que, nos anos 1960 ou 70 criou o conceito – liberdade é uma calça azul e desbotada (para vender jeans) – profetizou o que seria o mundo. A vitória acachapante do individualismo, do consumo. Nossa única liberdade de escolha é a de consumir, mas ela já foi pré-definida pela publicidade. Exagero, talvez, mas é por aí. Só que, no filme, René, Gael García Bernal, bola uma campanha baseada na alegria para derrotar a ditadura que se submete ao plebiscito, no Chile. A alegria vence como projeto coletivo, mas René termina o filme derrotado (não?). Não recupera a mulher, mantém o discurso vazio do começo. Se antes vendia refrigerante, agora vende uma novela (a versão chilena de ‘Loco…motivas’). A experiência não o transformou. Ele repete o chavão do contexto social, que vale para tudo. O que significa isso? A alegria do coletivo se constroi por meio de uma infelicidade individual? Uma nova maneira de contrapor socialismo/democracia – o socialismo não pode ser democrático -, de oprimir o indivíduo, que foi sempre a pedra de toque das críticas capitalistas aos projetos revolucionários? Prefiro mil vezes ‘a felicidade do negro é uma felicidade guerreira’, de Gilberto Gil e Cacá Dieguers, mesmo que ‘Quilombo’, como filme, não seja tão bom. ‘No’ é bom, mas, não sei, não tem centro – como um texto de Ferreira Gullar que li hoje, em que o poeta tenta responder à pergunta que muita gente se faz. No País do mensalão, do Joaquim Barbosa, por que a massa continua com Dilma e Lula? O artigo é um enunciado de conceitos reacionários sobre o povo, a mídia, os politicos, a classe dirigente em geral. E daí que o cara já foi revolucionário? Zé Dirceu, também, e hoje virou a Geni, abaixo do c… do cachorro. Não queria encerrar o ano sem escrever esse post que muito provavelmente vai me valer um monte de porradas. Mas eu estou tentando só entender. O mundo, o Brasil, o ‘No’. Para o que eu entendo que seja democracia, a aula é outra – o ‘Lincoln’ de Steven Spielberg, que estreia no fim de janeiro. Belo filme. Um grande 2013 para todos nós que amamos o cinema. E que venham muitos grandes filmes.

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