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Spike Lee!

Luiz Carlos Merten

22 de julho de 2020 | 19h17

Só preciso acrescentar que vi ontem o Spike Lee, Destacamento Blood. Gostei demais, e acho até que pelo que muita gente considera os defeitos do filme. Spike Lee redimensiona o Vietnã pela ótica dos soldados negros, que eram maioria nos pelotões, embora minoria na população. Um grupo de quiatro ex-fuzilreitos desembarca no Vietnã, décadas depois. Vieram por dois motivos – buscar os despojos de um antigo companheiro e também uma fortuna em barras de ouro que, na época, seria o pagamento do governo dos EUA pelo apoio contra os vietcongues. Esse ouro, na verdade, é o McGuffin da história, porque, no limite, a forma como é dividido, no final, mostra que ele não é o motor para nenhum dos protagonistas. O baixinho do Brooklyn é enfezado e tem boas, no plural, formações culturais e cinematográficas. Conhece Francis Ford Coppola (Apocalypse Now e suas ‘n’ versões), Martin Scorsese (o mistificador Irlandês). Fui procurar críticas na internet e encontrei o de sempre. Seria um falso Spike Lee, as vidas vietnamitas não importam, a representação dos vietcongues e seus descendentes não é correta, etc, etc. Hã? Ao contrário do que estão dizendo, a visão dele da guerra americana, pois é disso que se trata, me pareceu muito rica e estimulante, a começar pelos depoimentos que abrem e fecham Das 5 Blood (título original). Começa com Muhammad Ali dizendo por que se recusa a lutar no Vietnã e termina com o Dr. King em seu discurso em que invocou o poeta Langston Hughes, Let America Be America again. Glauber Rocha – ‘Estão confundindo minha loucura com minha lucidez.’ Com base numa visão estereotipada de O Tesouro de Sierra Madre, de John Huston, estão tomando a loucura de Delroy Lindo como ‘queda’, quando é o oposto. Elevação – a consciência de Kurtz quem atinge é Paul/Delroy. Mas como, se ele é o fdp, se votou em Trump e usa o seu boné com a promessa de fazer a ‘América’ grande de novo? É aí que entra a particular relação dele com Streamin’. Como revisão da guerra americana, Destacamento Blood é um filme sobre ‘ghosts’, fantasmas, e é por isso que os velhos aparecem como tais nos flash-backs, enquanto Streamin’, não apenas por estar morto, mas por ser uma idealização que engloba o Dr. King e Malcolm X, permanece eternamente jovem. O ponto de Spike Lee é que as principais liderançaas do movimento por fdireitos fos negrtos eram contra a guerra, onde os afro-americanos foram usados como bucha de canhão. Não sei o que me impressionou mais, se essa ideia de um Streaming’ fantasmagórico, ou se a presença de Chadwick Boseman no papel. Como é possível que, em tão pouco tempo, o astro de Pantera Negra tenha atingido essa estatura no imaginário popular dos negros da ‘Améerica’? O tempo todo o que está em discussão é a autorreferência de Spike Lee, o fazer a coisa certa, que ele reinventa, na forma e no conteudo, sem ficar refazendo-se, à maneira de Scorsese, que está sempre girando em torno de Goodfellas. Tudo, a evolução dos personagens, a forma como a narrativa integra fotos, cinejornais, letreiros – documentário e ficção comentada -, é das coisas mais originais e criativas que já vi num filme da Netflix, mesmo que as fotos legendadas não sejam novidades em filmes do autor. Aliás, não é de hoje que parte da crítica reclama do didatismo de Spike Lee, mas, para mim, ele é plenamente compensado pela raiva, pela urgência e pela indignação que fazem dele um caso raro – único? O mais importante é que o filme ‘masculino’ é uma celebração das mulheres – a DJ vietcongue, a mãe do filho de Paul, a profissional do sexo e sua filha mestiça, a ativista francesa. A imagem, a trilha. Spike Lee sempre soube exatamente que música utilizar, aqui, Marvin Gaye. Got To Give It Up. Não creio que essas reflexões rascunhadas deem conta da emoção que me causou o Spike Lee. E agora não consigo ir adiante. Estou com a TV ligada no SP e acabo de ver duas reportagens. Os moradores de rua que morreram após comer comida – envenenada? – que lhes foi dada por voluntários em Itapevi e a mulher atingida na frente de casa por um brutamontes que nem se voltou ao dar o golpe. Não dá. A barbárie instalou-se. De onde as pessoas tiram a ideia de que podem fazer isso? Esse tipo de coisa já existia, mas agudizou-se. A atração pela morte no post anterior ajuda a explicar o horror. O ‘e daí?’ do presidente tem a ver com tudo isso. Até, sim!, com o Spike Lee.