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E daí? Paulo Emílio em língua inglesa

Luiz Carlos Merten

29 de abril de 2020 | 21h21

A par de qualquer posicionamento político ou ideológico, foi o simples fato de tentar ser civilizado que me fez ficar chocado com a fala do presidente. Interrrogado pelos puxa-sacos e tietes de plantão na porta do palácio, tascou uma que já entrou para a história. Face aos 5 mil mortos pelo Covid, ele retrucou ‘E daí?’ e disse que pode ser Messias, mas não faz milagre. É mole? E ainda tem apoiadores! Seu ministro da Saúde é desesperador. Olho para ele e não sei se vejo o Dr. Morte ou algum coveiro de western. Perto dele, o Morte de Ingmar Bergman em O Sétimo Selo era animador de balada. Estamos no pé do Diabo, realmente. Na mão de Deus é que não é. Comecei meu dia escrevendo o texto sobre Assim Caminha a Humanidade, de George Stevens, para a série Clássico do Dia. Tenho escrito tanto que já deve ter reserva até para quando o isolamento acabar. O caso de Giant ficou muito interessante porque, na Berlinale, comprei o livro de Dan Graham The Making of a Legendary American Film, editado pela The Library of Congress nos EUA, com informações que desconhecia sobre os bastidores da produção. As divergências pessoais e artísticas de Stevens e James Dean foram muito maiores do que jamais imaginei. Por falar em livro, no sábado pela manhã dei uma escapada e aproveitei a ida à farmácia para ver se a banca do Conjunto Nacional, a Rainieri, tinha recebido novas revistas de cinema. Comprei Film Comment, Cinemascope, Cineaste, Empire, etc. Na Film Comment encontrei críticas altamente elogiosas de Bacurau e também de First Cow, o belo filme de Kelly Reichardt que havia visto – e amado – em Berlim. Ambos deveriam estrear em Nova York em 6 de março, mas, com certeza, foram atropelados pela pandemia. Na seção de livros de Cineaste, a surpresa. On Brazil and Global Cinema, uma coletânea de ensaios de Paulo Emilio Salles Gomes organizada por Maite Conde e Stephanie Dennison para a Cardiff University of Wales Press, distribuida pela University of Chicago Press. A resenha elogiosa de Jonathan Rosembaum não faz referência à frase pela qual ele costuma ser reverenciado no Brasil – “O melhor filme estrangeiro não vale o pior brasileiro” – e privilegia o Paulo Emílio hiperbólico, não baziniano, que biografou Jean Vigo e cujo pensamento crítico as organizadoras sintetizam numa chave, a busca por uma unidade de ritmo, que o levava a reverenciar Outubro, de Sergei M. Eisenstein, sobre Cidadão Kane, de Orson Welles. Outubro! De todos os filmes de Eisenstein, tenho de admitir que é dos que menos vezes vi, ao contrário de Potemkin e Alexandre Nevski, os mais. Creio até que vi Outubro somente uma vez, em Porto Alegre, em 1962, na grande mostra do cinema soviético da era de ouro, no Salão de de Atos da Reitoria da UFRGS. Mais recentemente, fiz um destaque de Outubro, na TV paga. Zapeando, consegui rever cenas ou imagens – o massacre dos bolchevistas por soldados justaposto aos burgueses que espancam um revolucionário. É um filme em que ocorre muita coisa, e no qual a massa é o grande personagem. Do que pude rever, Outubro, também conhecido como Dez Dias Que Abalaram o Mundo, flui para criar uma noção de movimento – o movimento da revolução -, entremeado por imagens que são simbólicas, como o cavalo morto que é erguido pela ponte levadiça à qual está atado. A unidade rítmica de Paulo Emílio? Sinto que deveria tentar rever Outubro.

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