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1917 – Em nome do Pai

Luiz Carlos Merten

26 de janeiro de 2020 | 09h50

PORTO ALEGRE – Havia gostado muito de 1917 quando vi o épico de guerra de Sam Mendes na cabine da Universal, no começo de dezembro. A cabine exclusiva foi marcada às pressas, porque iam rolar entrevistas com o diretor e os atores Dean-Charles Chapman e George MacKay. No final, e por uma questão de schedule, falei só com os atores. Fui rever ontem à tarde 1917 no Itaú Bourbon. Dois dias seguidos saí aos prantos das salas, depois de ver A Melhor Juventude Parte 2 e o Mendes. Por mais que tenha gostado da primeira vez, foi agora uma descoberta, e uma revelação. Gostei muito mais. Havia visto o filme sem legendas, e eram muitos detalhes para absorver. O plano contínuo, o diálogo. Amo a estrutura cíclica, que começa com os amigos adormecidos, à sombra da árvore, sendo chamados para a missão – atravessar o campo de batalha. No final, olha o spoiler, só um deita-se de novo à sombra de outra árvore. Extenuado, mas com a missão cumprida, o repouso do guerreiro. Sam Mendes inspirou-se em seu avô, nas histórias da 1.ª Guerra que ele contava e viraram patrimônio da família. Finalmente, deu para entender tudo. A obra toda, não só o filme. Beleza Roubada e Estrada Perdida eram sobre pai e filho e em Jarhead, Soldado Anônimo, Mendes usou uma guerra, a do Iraque, do pai (George Bush) para falar sobre a do filho (George W. Bush). Nos filmes de James Bond, a questão talvez não seja o pai, mas a mãe – a perda de M/Judi Dench e o ímpeto assassino de Javier Bardem. A mãe, a esposa, as mulheres – ‘Volte para nós’ – são onipresentes em 1917. Em fuga, Sco lança-se às águas, atravessa o rio e vai parar na floresta em que os soldados repousam antes da batalha. A voz solitária louva o Senhor. A travessia de outro rio, o mítico Jordão. Deus, o Pai. E a mãe? O pedido final de Sco – ‘Posso escrever à sua mãe?” A guerra, a trincheira como experiências viscerais, transformadoras do ser humano. 1917 não é só um imenso desafio técnico. É uma densa experiência emocional. Graças a Deus, e aos grandes artistas, que o cinema não cessa de me surpreender. E maravilhar.

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