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Adiós, Nonino, ou quem sabe – Embarque Imediato

Luiz Carlos Merten

05 de dezembro de 2019 | 10h53

BUENOS AIRES – Mal passei por São Paulo, depois do fim de semana no Rio. Não dei conta de que assisti, no Poeira, a Embarque Imediato, a peça com Antônio Pitanga e Rocco Pitanga, pai e filho, com a participação virtual, como imagem e voz, de Camila. Encontrei, no teatro, Bárbara Paz, que me contou que, no sábado à noite, Juliette Binoche, Renata de Almeida e ela foram a uma comemoração na Mangueira e Mademoiselle não apenas vestiu a camiseta da verde e rosa como se arriscou a sambar. Maravilha! Vou voltar à peça, aguardem. Estou na Argentina por conta da junket de Os Dois Papas, da Netflix. Cheguei na terça à tarde, mal tive tempo de enviar um material para o Estado e já saímos para um jantar com show de tango. Achei o lugar, El Cabaret, chiquérrimo, com uma comida deliciosa e vinho melhor ainda, mas o show… Os músicos e os bailarinos eram sensacionais, e a carga dramática (e sensual) do tango sempre me encanta, mas os cantores não se comparam aos do Viejo Almacén. Ontem pela manhã, fiz minhas entrevistas individuais com Jonathan Pryce e Juan Minujín, que fazem o papa Francisco e sua versão jovem, Jorge (Bergoglio), e também me encontrei com o roteirista Anthony McCarten, que inverteu a entrevista. Queria saber tudo sobre o meu defeito físico. Contei-lhe algumas histórias que ele me pediu licença para utilizar e claro que concordei, embora espero que não o faça, pois são muito íntimas. Enfim, sem identificar, tudo vale. Devo dizer, mesmo com risco de cabotinismo, que Fernando Meirelles, generoso como sempre, exagerou e ao me ver proclamou, alto e bom som, para todos ouvirem – e ouviram! -, que eu era era/sou o maior crítico brasileiro. Isso desencadeou uma romaria dos assessores locais da Netflix e de colegas latino-americanos ao blog. Terminei ficando amigo de críticos do Chile, da Colômbia e do México, com quem tive longas conversas no fim da tarde, enquanto esperávamos pelo tapete vermelho de Los Dos Papas, na Facultad de Derecho. Chile e Colômbia estão explodindo – o futuro do Brasil? Por causa da perna, me providenciaram uma cadeira e lá fiquei sentado, com eles ao redor, nas escadas. Fui jantar – sozinho – em Recoleta, num restaurante que já conhecia de outras viagens, inclusive com Dib Carneiro. Agora, estou no hotel, postando depois de haver enviado meu material do dia para o Estado. Sigo no meio da tarde para o aeroporto (Ezeiza), de onde sai o meu voo, acho que às 7, para São Paulo. Quero sair para uma última volta, que espero que não seja a última, por essa cidade que amo. Espero passar pela Ateneo, a livraria da Florida, 340, para um café e dar uma olhada nos lançamentos de cinema. Não posso finalizar sem relatar minha epifania. O show de tango terminou com Astor Piazzolla, Adiós Nonino. É uma da músicas da minha vida, com Coração de Estudante e Juízo Final. Acredito ter um coração vagabundo de estudante, mas minha ligação com Nonino é visceral. Tive uma prima a quem amava, e que viveu uma história de amor tão bela quanto infeliz. Teresa! Era negra e linda, e não vou contar a história, mas tinha um carinho imenso por minha prima e, quando ela morreu, lembro que coloquei o disco do Piazzolla com Gerry Mulligan, Reunion Cumbre, do qual Años de Soledad me dilacera, e depois ouvi o Adiós Nonino. Ouvi e ouvi. Piazzollla compôs esse tango em Nova York, em homenagem a seu pai – Nonino -, que morrera. Virou para mim um tema de luto, mas não de fim. De recomeço, superação. Desnecessário dizer que chorei mais uma vez ouvindo meu Piazzolla do coração.