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Filmes, revistas e o resgate da grande Ellie Lambetti

Luiz Carlos Merten

02 de setembro de 2019 | 09h44

A Milionária, a versão de Anthony Asquith, chamou-se no Brasil Com Milhões e Sem Carinho. E sobre a Rosemary de Rolf Thiele, citada no post anterior, Pauline Kael dizia uma coisa que, nesta fase de empoderamento, lhe valeria a fogueira das inquisições feministas – Nadja Tiller era, segundo ela, uma das grandes putas que rodaram bolsinha na tela. Em Gramado, tive de ouvir, de um par de coleguinhas, que Veneza, de Miguel Fallabela, era o fim do mundo por sua representação da prostituição feminina. Abaixo Federico Fellini, aquela tal de Cabíria, Billy Wilder, a doce Irma, e as putas tristes de Gabriel García Márquez. Arriba as putas sofredoras do cinema de lágrimas mexicano dos anos 1940. Anthony Asquith era neto de um primeiro ministro inglês. Fazia um cinema polido, ligado à upper class. Em 1960, quando fez de Sophia Loren a sua Epifânia, fazendo-a vestir pelos maiores estilistas da época, os jovens irados do cinema livre desviavam sua câmera para a classe trabalhadora. Karel Reisz e Tudo Começou Num Sábado, Lindsay Anderson e This Sporting Life e Tony Richardson, que bebia nos angry playwriters – John Osborne (Odeio Esta Mulher) e Shelagh Delaney (Um Gosto de Mel). O gay de carteirinha Murray Melvin que ajuda Rita Tushingham, abandonada pelo namorado, a ter seu bebê. A cena em que ele vai se informar no centro de saúde, diz que sua mulher está grávida e todas as mulheres na sala de espera o olham com ar de deboche. Sem nenhuma violência ou agressão, poucas cenas expõem de forma tão cruel – e explícita – o preconceito. Nada como o tempo – até Anthony Asquith está sendo reabilitado. Vários de seus filmes são hoje reconhecidos como grandes. Mudando de assunto, Doris, minha ex, foi a Paris em julho e lhe pedi que me comprasse revistas de cinema. Ela me comprou a Cahiers, com ‘Une Histoire de Réalizatrices’ na capa e nenhuma diretora brasileira listada. Tenho de admitir minha ignorância – tendo sido contemporâneo da nouvelle vague e tendo assistido a inúmeras retrospectivas do movimento, nunca tinha ouvido falar de Laura Delsol, que Cahiers coloca nas nuvens. E por que essa mulher considerada extraordinária parou? Porque engravidou e nunca conseguiu conciliar cinema e maternidade. Transfuge, também de julho/agosto, dedica extensa cobertura ao Festival de Cannes, mas confesso que me amarrei no texto que recupera três filmes de Michael Cacoyannis, entre neorrealismo e melodrama. Antes da sua fase de tragédias com Irene Papas, Cacoyannis teve outra fase em que Ellie Lambetti iluminou sua tela. Três filmes entre 1954 e 58, incluindo dois que conheço – Windfall in Athens e A Mulher de Negro -, e que me fizeram viajar nas lembranças. Finalmente, Positif. Um dossiê dedicado a Cannes, outro aos filmes de espionagem, com um segmento especial sobre John Le Carré, que coloca em destaque Martin Ritt (O Espião Que Saiu do Frio) e Fernando Meirelles (O Jardineiro Fiel). São revistas que não chegam às bancas brasileiras – Cahiers, eventualmente. Na banca da Paulista, do Conjunto Nacional, comprei a Sight and Sound de agosto, com um dossiê sobre a nova geração – new voices – do cinema britânico. Um monte de gente de que nunca ouvi falar, mas também uma extensa análise de Nuestro Tiempo, o Carlos Reygadas cujo impacto e importância foram, injustificadamente, ofuscados por Roma, de Alfonso Cuarón.

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