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Pais!

Luiz Carlos Merten

14 Agosto 2016 | 09h55

Domingo, 14 de agosto, Dia dos Pais. Fiz uma lista de 22 filmes para o portal do Estado sobre a ligação entre pai e filho – filho. Poderia fazer outra lista sobre pai e filha(s). Não sei como terá saído no online. Outro dias fiz outra lista – sobre os 110 anos de nascimento de John Huston – que nossa redatora do Caderno 2, Regina Cavalcanti, trucidou, transformando em galeria. Escrevi um pequeno texto para cada filme que ela foi cortando sumariamente porque, me disse, as legendas das galerias têm de ter, sei lá, 100 toques. Mais que isso as pessoas não leem e o que interessa são os cliques. O mundo está ficando difícil para os analógicos. O Globo deu bonequinho saindo do cinema para Esquadrão Suicida, mas pelo visto o público não lê e o filme de David Ayer, do qual gostei muito, está sendo um megassucesso – 2,3 milhões de espectadores no primeiro fim de semana. Li outro dia, ao fazer uma pesquisa de data, ou título, na rede, que a Warner vai fazer um novo Superman. E o autor da nota – nem reparei se era assinada – fazia votos de que dessa vez acertassem. Superman! Os dois filmes de Zack Snyder têm cadeira cativa entre os meus melhores filmes do ano e, as long as I live, o deus Henry Cavill vai ser (sempre!) o melhor ator. Quando o entrevistei por Ben-Hur, Jack Huston me disse que demorou duas semanas só para se equilibrar na biga, e aí o diretor Timur Bekmambetov disse para ele que, dali em diante, já podia representar. Cavill faz todas aquelas estripulias como Superman representando. Tem de ser gênio. Já o Eddie Redmayne… Acerta nos seus tortinhos, mas como se chama mesmo aquele filme dos irmãos Wachowski – das iremãs -, Júpiter alguma coisa? Redmayne faz o vilão, uma coisa horrível. Enfim, volto aos pais. Vou fazer outra minilista para os pais no blog. Uns seis ou sete filmes que formam um bloco mais pessoal. Não será a mesma do portal. Vamos lá.
Ladrões de Bicicletas, de Vittorio De Sica. Só o final já chega. Enzo Staiola aperta firme a mão do pai derrotado, que salvou de ser linchado na rua, e olha duro para a câmera. Não sei o que me comove mais. Pai, filho, a infância assassinada. Enzo, ali, vira homem. Na marra. Cinco anos depois, em Os Brutos Também Amam, de George Stevens, de 1953, ao perder Shane, o pequeno Joey/Brandon de Wilde também se despede da infância e arromba as portas da vida adulta. Na vida, a real, não sei o que foi feito de Enzo Staiola, mas Brandon morreu cedo, o pobre. Tinha aquele sorriso triste. Será que sabia o que ia lhe acontecer?
Clamor do Sexo, de Elia Kazan. Nos anos 1950, em dois filmes sucessivos que estabeleceram seu breve, e póstumo, reinado em Hollywood – Vidas Amargas, de Kazan, e Juventude Transviada, de Nicholas Ray, James Dean protagonizou cenas de uma histerias imensa para expressar a revolta contra o pai. Em 1961, Kazan contou a história de dois jovens apaixonados, Warren Beatty e Natalie Wood. Ela é pobretona e o pai dele, Pat Hingle, não a considera adequada para o filho. Tanto faz que os separa. O crack de 1929 destrói as finanças da família. O pai mata-se. Anos mais tarde, Beatty e Natalie se reencontram, mas nada trará de volta o esplendor da relva do poema de Woodsworth que serve de epígrafe ao filme. O pai cruel.
Pai Patrão. A Palma de Ouro dos irmãos Taviani, de 1977. Baseado na experiência do autor sardo Gavino Ledda, a história do filho pastor que teve de se rebelar contra o pai – e o personagem de Omero Antonutti representa a autoridade – para se converter em escritor (e estudioso da língua italiana). Os filhos não são propriedade dos pais, mas, muitas vezes, os pais agem como se fossem
O Campeão, de Franco Zeffirelli. Bad movies we love. Nos anos 1930, King Vidor fez Stella Dallas/Mãe Redentora, com Barbara Stanwyck, que virou o paradigma dos filmes sobre mães sofredoras. Na mesma década, o rei Vidor fez o Campeão, com Wallace Beery, que Zeffirelli refilmou no fim dos anos 1970. O lutador Jon Voight volta a lutar para ter dinheiro e poder reivindicar o filho, que ama. Morre no ringue. O sacrifício do pai. O garoto urra, não chora. Pode não ser bom, como a maioria dos filmes de Zeffirelli, mas a catarse… Garantida!
O Rio, de Tsai Ming-liang. A água, como sempre, é representação de desejo sexual nos filmes do autor taiwanês. Na sombria sauna gay, seu ator-fetiche, Lee Kang-sheng, rejeita os avanços de um velho que, sim!, pode ser seu pai.
Procurando Nemo, de Andrew Stanton e Lee Unkrich. A mais bela das animações (depois de Ratatouille, é verdade). O sacrifício de um pai que atravessa o oceano para recuperar o filho, e é bem sucedido.
Ode para Meu Pai, de Yoon Je-kyoon. Quem viu o filme na recente K-Action Mostra de Cinema Coreano deve estar chorando até agora. Garoto vira homem (e velho) tentando cumprir a promessa que fez ao pai, durante a guerra – que, na ausência dele, vai cuidar da família. Ele se culpa por haver soltado a mão da irmã (e ela sumiu). Uma vida inteira de sacrifício. E o pai, como num sonho, vem libertar o filho.
Feliz dia dos pais!