As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Print the legend

Luiz Carlos Merten

19 de março de 2016 | 09h34

Confesso que os últimos dias têm sido difíceis. Para mim como para todo o mundo, reconheço, mas, até por minha função/formação de ‘crítico’ – por menos que goste de me definir como tal, e não porque ache que me falta qualificação -, estou acostumado a pensar sozinho, mesmo quando a ação me integra no coletivo. E o Brasil atual não está para reflexão, embora, mais que nunca, a exija. Há uma polarização muito grande. Ou você é contra ou a favor, e do jeito que a coisa anda expor dúvidas não é muito bem-vindo. É preto no branco, e o julgamento parece já ter sido feito. É curioso, mas tenho visto esses épicos bíblicos. Tanto Ressurreição, direção de Kevin Reynolds, quanto O Jovem Messias, de Cyrus Nowrasteh, traçam retratos da Judeia na época do Cristo e mostram multidões enfurecidas, polarizadas, o que leva personagens como o cônsul romano e o próprio Herodes a refletirem que a multidão é sempre irracional e manipulável, e o resultado todo mundo sabe, agora sou eu falando. Está na Bíblia, um livro antigo e muito reescrito (e, de certa forma, também ‘ajustável’ a olhares – a famosa Bíblia do Rei James). O que quero dizer é que o cinema tem me permitido pensar, logo, existo. Mas ando me sentindo um personagem viscontiano, desgarrado no mundo. Dizia o grande Luchino – citado por José Luis Guarner, à maneira de epitáfio, num pequeno livro precioso, Conocer Visconti y Su Obra, Editorial Dopesa 2 – “Prefiro narrar as derrotas, descrever as almas solitárias e os destinos destroçados pela realidade.” Visconti, nesse sentido, está muito próximo, no meu imaginário pelo menos, de John Ford, que filmava a grandeza dos derrotados. Meus sonhos andam destroçados. Na terça que vem, 22, vou ao Peru, com meus amigos Dib Carneiro, Gabriel Vilela e Claudio Fontana. Talvez eu esteja mesmo precisando voltar a Machu Picchu, ao teto do mundo, como pensavam os incas, para me energizar, recuperar a serenidade. A única coisa que me anima é a crença de que o fim sempre carrega um (re)começo. Não consegui nem voltar ao tema da morte de Visconti, no blog. Na quinta, 17, completaram,-se 40 anos da morte do diretor. Reli os relatos de sua passagem. Visconti, semiparalítico e com a fala prejudicada, tornara-se um fardo para si mesmo e para os que cercavam. Continuava perfeccionista e, na filmagem de O Inocente, queria que o véu do chapéu de Laura Antonelli amassasse o rosto da atriz de um jeito que devia visualizar na cabeça, mas ninguém conseguia reproduzir e ele, preso à cadeira de rodas e sem poder movimentar as mãos, também não lograva expressar. Impotente, desesperado, urrava feito um bicho no set. Naquela tarde, 17 de março, estava no palazzo da Via Salaria, em Roma, com a irmã, Uberta, e os dois cães berger, Theodore e Konrad, por causa do personagem de Helmut Berger em Violência e Paixão. Havia terminado de forma traumática sua ligação com Helmut. Considerava-se traído pelo ex-amante, que fora filmar A Inglesa Romântica com Joseph Losey e Visconti odiava Losey, porque achava que fora a intransigência desse que o impediu de fazer Em Busca do Tempo Perdido. O interessante é que Losey pensava a mesma coisa. Os dois queriam adaptar o romance-rio de Marcel Proust. Visconti estava gripado há dois dias. Não saíra da cama. Pediu a Uberta que colocasse a Segunda Sinfonia, de Brahms. Ouviu-a inteira. Pediu para ouvir de novo. “Agora, chega. Estou cansado, preciso descansar.” Virou-se para o lado, e morreu. Na cabeceira, tinha dois porta-retratos de prata, um com a foto de Helmut Berger e outro com a que Marlene Dietrich autografara para ele – “Penso em ti todo o tempo.’ Não sei até que ponto essa história, que li em diferentes fontes, é verdadeira, mas ela me deixa maluco porque é como se Visconti, grande artista, tivesse feito a mise-en-scène da própria morte. Volto a John Ford. No desfecho de O Homem Que Matou o Facínora, o editor Edmond O’Brien, descobre a verdade sobre a ligação de John Wayne e James Stewart. Está para revelá-la ao mundo, publicando a matéria que conta quem, de fato, matou Liberty Valance. Mas recua e pronuncia frase célebre – “Print the legend.” Tom Doniphom, o personagem de Wayne, permanecerá nas sombras e o grande filme de Ford encerra-se com a imagem do velho (Andy Devine) chorando. Ando me sentindo assim, agoniado. Vai passar (Chico Buarque – ‘Nessa avenida um samba popular…’). José de Alencar, Iracema, Tudo passa sobre a Terra. Não sei se isso chega a me consolar. Está sendo duro.