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Arte e vida em (perpétuo) movimento

Luiz Carlos Merten

18 de outubro de 2014 | 09h00

BH – Teria visto alguma coisa boa na Mostra, se tivesse ficado ontem em São Paulo, não duvido. Sempre foi o sonho de Leon Cakoff. Ele dizia que todo filme da Mostra era bom e esperava que a gente pegasse o ingresso e entrasse no escuro, sem saber que filme ia ver. A alegria de ser surpreendido. Ocorreu comigo na quinta-feira. Havia perdido o Camaradas, na retrospectiva de Marin Karmitz. No Centro, resolvi passar na Galeria Olido para ver o que passava. Carta a Um Pai, de Edgardo Cozarinsky, crítico argentino que se exilou na França e virou cineasta nos anos 1960 ou 70. Não fazia a menor ideia sobre o que se tratava, como também não tinha nenhuma referência de Tsili, que vi à noite, exceto o nome do ‘autor’, Amos Gitai. Mas nada disso se compara à minha conversão a Roberto Rossellini, assistindo a Viagem à Itália. O filme já passara no Rio, na minirretrospectiva 6 X Rossellini, com filmes do diretor italiano que foram restaurados pela Cineteca de Bolonha. Fazia tempo que não via Viaggio in Italia. Na verdade, acho que havia visto o filme somente uma vez, na Faculdade de Arquitetura. Houve não me lembro que programação e vi Rossellini com um Georges Franju – Les Yeux sans Visage, que influenciou A Pele Que Habito, de Pedro Almodóvar – e um Satyajit Ray, Rabindranath Tagore, sobre o grande poeta (mas sobre Satyajit). Tanto quanto a revelação do filme, tive a revelação dos video-ensaios de Tag Gallagher, o segundo maior crítico do mundo – atrás de quem? Sou duro de admitir, mas morri de inveja de Gallagher, que fez o que Jean-Luc pregava. As melhores críticas, dizia Godard, teriam de ser filmadas. O Desprezo é o melhor filme dele e a melhor crítica que já vi (li?) sobre o gênio de Fritz Lang. Vivemos na era, na sociedade da imagem. Eu resisto e não publico nenhuma foto no blog. De que adiantaria?Rossellini transformava tudo em movimento. Os giros que os personagens faziam diante de sua câmera eram captados por elaborados movimentos da máquina. Pela primeira vez sinto que entendi – nunca é tarde – o conceito nouvelle-vaguista do travelling como questão de moral. Abro mão de minhas certezas para virar um (eterno) aprendiz. O mundo para Rossellini, fosse a Itália fascista, a do pós-guerra, que se reerguia economicamente, ou a Alemanha pós-nazista, era feita de confusão, caos, risco, obsessão. Seus filmes buscavam estabelecer a ordem, e quando ele acertava, a providência divina dava as caras e os filmes tocavam a graça. Os labirintos de Rossellini, a pedra, a carne humana, a dor da perda – o filho que morreu criança – e os casais. Ingrid Bergman e George Sanders. Todo o episódio dele com a p… Os dois fumam no carro. Falam. Silenciam. Há mais comunhão ali do que no reencontro com a mulher, quando ele volta para casa. Ingrid joga cartas. Dizem coisas banais, pensando nas outras coisas que não conseguem (se) dizer. Foi, como já escrevi no post anterior, uma epifania. Rossellini ficou próximo da transcendência de Carl Theodor Dreyer e Robert Bresson. Arte e vida eram orgânicos para ele. Rossellini viveu em turbulência. Quando não conseguia colocar na tela o dilaceramento interior de seus personagens – e que ele próprio sentia -, o irmão Renzo vinha em seu socorro, com aquelas partituras. O que foi o neorrealismo? Não um estilo nem conteúdo. Cristo e Gramsci, como resume Gallagher. Alma. Renascimento. E depois de uma pausa para matérias, vi O Assombro, de Santiago Loza, que emendei com E Agora? Lembra-me, de Joaquim Pinto. O último, revi. E Loza foi outra descoberta. Seu filme é difícil de classificar. Um coral de vozes. Imagens. O assombro de viver, de sentir, de ser. De tentar ser parte do mundo, de entender. Como se coloca na tela o invisível, o indizível? O fluxo de James Joyce, de Virginia Woolf transformado em imagens e sons. E hoje tem mais. Tag Gallagher dá sua segunda master class – sobre John Ford, e exibe Sangue de Heróis/Forte Apache – e a retrospectiva de Olivier Assayas propõe Irma Vep, para encerrar a noite com o documentário de Frederick Wiseman, National Gallery. O sábado promete e amanhã volto para São Paulo.

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